|
A tese do meteorito caiu no campo. Em 1969, o geólogo americano Robert Dietz e colegas publicaram no boletim da Sociedade Geológica da América que não encontraram no Richat sinais de metamorfismo de choque, as marcas microscópicas que só a pressão de um impacto deixa no quartzo.
Faltavam também os cones de estilhaçamento, rochas partidas em leque, típicas de cratera. E as camadas do alvo não estavam viradas e quebradas como numa explosão: estavam curvadas para cima, num arco suave, como a casca de uma cebola cortada ao meio.
A explicação que fechou o quadro veio em 2005. Os geólogos Guillaume Matton, Michel Jébrak e James Lee, da Universidade do Québec em Montreal e da Queen's University, publicaram na revista Geology um estudo de campo e de datação das rochas do Richat.
DE BAIXO PARA CIMA
|
O magma empurrou as camadas por baixo e as dobrou num domo; a erosão aplainou o topo e deixou à mostra as bordas de cada camada em círculo.
|
Segundo o grupo de Matton, a rocha de magma do Richat se formou há cerca de 100 milhões de anos, no Cretáceo, quando o oceano Atlântico se alargava e a África se afastava da América do Sul.
O magma era alcalino, rico em sódio e potássio. Ele não chegou a romper a superfície em grande volume: ficou preso a pouca profundidade, inchou as camadas de cima e abriu as fendas circulares por onde subiu o gabro.
A sequência, do começo até o alvo de hoje:
1. O magma sobe e para pouco abaixo da superfície.
2. As camadas de rocha de cima se curvam num domo.
3. A água quente dissolve o calcário do centro, e o teto desaba.
4. A sílica cola os cacos e forma a brecha do miolo.
5. O vento e a água desgastam o topo do domo por dezenas de milhões de anos.
6. O quartzito resiste e fica de pé em anéis; a rocha mole vira vale.
O círculo quase perfeito vem da própria origem. O magma empurrou a partir de um ponto central, e a pressão se espalhou por igual em todas as direções, como um dedo que levanta uma toalha esticada sobre a mesa.
A erosão fez o resto. Ao cortar o domo na horizontal, ela expôs cada camada numa faixa redonda, na ordem em que foram depositadas: as mais antigas no centro, as mais novas na borda.
O satélite Landsat 9, da NASA e do Serviço Geológico americano (USGS), passa sobre o Adrar a cada 16 dias. Reconfira os 40 km dos anéis no portal EarthExplorer do USGS, em earthexplorer.usgs.gov, na primeira passagem de dezembro de 2026, quando o ar seco do inverno saariano costuma deixar a imagem mais limpa.
|