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A erosão abriu o Olho do Saara na Mauritânia

A Estrutura de Richat tem anéis de rocha com uns 40 km de largura, restos de um domo gasto pelo vento e pela água.

Anéis concêntricos de rocha da Estrutura de Richat, no deserto da Mauritânia, vistos do alto.

Estrutura de Richat, no Saara da Mauritânia

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O vento empurra areia contra a lataria da caminhonete com um chiado fino, e o capô já queima a palma da mão antes das dez da manhã. Pela janela entra um cheiro seco de pedra aquecida.

A pista sai de Ouadane, antiga cidade de caravanas no planalto de Adrar, no centro da Mauritânia, e desce para uma planície de cascalho escuro. Não há árvore nem placa. Só cristas baixas de rocha cinzenta, que cortam o chão em curvas longas.

Quem dirige ali não percebe desenho nenhum. As cristas parecem morros soltos, separados por corredores de areia amarela. O motorista atravessa uma, depois outra, depois mais uma, sem notar que todas fazem a mesma curva.

O desenho só aparece de muito alto. Visto de um avião, ou de uma nave em órbita, o terreno forma um alvo de anéis concêntricos, com uns 40 km de largura, parecido com as ondas de uma pedra jogada num lago parado.

Os moradores do Adrar chamam o lugar de Guelb er Richât. Os mapas ocidentais registram Estrutura de Richat, e os fotógrafos de satélite preferem Olho do Saara, porque o centro escuro cercado de anéis claros lembra uma íris.

Por décadas, a explicação mais repetida foi a de um meteorito. Um alvo redondo no meio do deserto parecia a marca óbvia de um impacto vindo do espaço, e a ideia correu livros, revistas e guias de viagem.

Os geólogos foram até lá com martelo e lupa e não acharam a assinatura do choque. Acharam uma história mais lenta: um domo de rocha (uma bolha de camadas empurradas para cima por baixo) que o vento e a água rasparam até expor as camadas em círculo.

Antes de chegar à causa, vale percorrer o alvo anel por anel, do miolo até a borda, e situar o lugar no mapa da África.

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I  O mapa do dia

Um alvo no planalto de Adrar

Do miolo de sílica até a borda de quartzito.

A Estrutura de Richat fica no oeste do Saara, perto de 21 graus de latitude norte e 11 graus de longitude oeste, a cerca de 600 km em linha reta a nordeste de Nouakchott, a capital da Mauritânia.

O chão em volta é o planalto de Adrar, uma mesa de arenito cortada por vales secos, algumas centenas de metros acima do nível do mar. Ao sul, o mar de dunas de Ouarane encosta na borda do alvo e avança sobre ela.

Ouadane, a vila de onde saem os passeios, fica a uns 30 km a sudoeste do centro. Suas casas de pedra seca e a mesquita antiga entraram em 1996 na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, junto com outros três ksour (vilas fortificadas de pedra e barro das rotas de caravana) da Mauritânia: Chinguetti, Tichitt e Oualata.

TRÊS ANÉIS E UM MIOLO

Cada anel claro é a borda gasta de uma camada de rocha dura, e cada faixa escura entre eles é rocha mais mole, que a erosão já cavou.

As cristas claras são de quartzito, um arenito endurecido por calor e pressão até virar quase vidro. Quase nada o desgasta, e as camadas dele ficam de pé enquanto o resto afunda.

Entre as cristas correm vales rasos, cheios de cascalho e areia trazida pelo vento. Vistos de cima, formam as faixas escuras do alvo, e os anéis claros se repetem do centro para fora, três principais, cada um mais largo que o anterior.

No miolo, a rocha muda. Ali aparece uma brecha (rocha feita de cacos de outras rochas, colados por um cimento natural), grudada por sílica, o mesmo mineral do quartzo. O círculo central mede poucos quilômetros e tem cor mais escura que o resto.

Em volta do miolo, os geólogos mapearam anéis de gabro, rocha escura de magma que esfriou devagar debaixo da terra. Esses anéis são diques circulares: fendas por onde o magma subiu e endureceu antes de chegar à superfície.

As camadas sedimentares do alvo são muito antigas, do fim do Pré-Cambriano (a era antes dos animais de casca e esqueleto) e do Ordoviciano, período em que a vida ainda se concentrava no mar. A rocha que as atravessa por baixo é bem mais nova.

De dentro, o relevo é baixo demais para revelar o desenho. Do espaço, o contraste salta. Nos voos do programa Gemini, da NASA, em 1965 e 1966, as tripulações já fotografavam o alvo, e quem passa hoje pela Estação Espacial Internacional segue usando os anéis para se localizar sobre o Saara, onde quase todo o resto é areia lisa.

 
 

II  O que tem ali

Sílica, cascalho e machados de pedra

O chão do Richat é quase todo pedra nua. A chuva é rara e pode faltar por anos seguidos, e a vegetação se resume a tufos de capim duro e acácias baixas nos leitos secos, os uádis (vales de rio que só correm depois de tempestade).

O vento trabalha o ano inteiro. Ele arrasta areia do mar de dunas ao sul, enche os vales entre as cristas e lixa a face exposta do quartzito, que brilha ao sol do meio-dia como vidro fosco.

Nos anéis de dentro, a rocha guarda pistas de fogo. Além do gabro, há restos de pequenos vulcões de riolito, uma lava clara e grossa, rica em sílica. Há também carbonatito, rocha de magma raro feita sobretudo de carbonato, o mineral do calcário.

O MIOLO DE SÍLICA

O centro do alvo é um bolsão de rocha dissolvida e caída, que a água quente colou de novo com sílica.

Debaixo do miolo havia calcário, rocha que a água ácida dissolve com facilidade. Água quente vinda do magma circulou por ali, abriu cavernas, e o teto delas desabou sobre o vazio. Os cacos do desabamento formam a brecha do centro.

A mesma água carregava sílica dissolvida. Ao esfriar, ela depositou o mineral entre os cacos e os soldou num bloco duro, que hoje resiste à erosão quase tão bem quanto o quartzito dos anéis.

O Richat também guarda gente antiga. Nos uádis em volta do alvo, arqueólogos recolheram ferramentas acheulenses, machados de mão de pedra lascada do Paleolítico (a idade da pedra lascada), feitos por ancestrais humanos muito antes da agricultura.

Os machados mostram que a região já foi mais úmida. Em fases verdes do Saara, havia lagos, capim alto e caça na planície, e o alvo de rocha ficava no meio de uma savana.

Nenhuma escavação registrou cidade, porto ou muralha dentro dos anéis. A ideia de que o Richat seria a Atlântida de Platão corre a internet, mas as rochas do domo foram erguidas dezenas de milhões de anos antes da existência de qualquer ser humano, e o alvo fica a centenas de quilômetros do mar, num planalto acima do nível do oceano.

Hoje o visitante chega de jipe a partir de Ouadane ou de Atar, a capital regional. O trajeto é curto, mas sem asfalto, e o mais comum é dormir em acampamentos simples perto do miolo, sob um céu sem luz de cidade.

 

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III  Por que a linha passa ali

O domo que a erosão descascou

A tese do meteorito caiu no campo. Em 1969, o geólogo americano Robert Dietz e colegas publicaram no boletim da Sociedade Geológica da América que não encontraram no Richat sinais de metamorfismo de choque, as marcas microscópicas que só a pressão de um impacto deixa no quartzo.

Faltavam também os cones de estilhaçamento, rochas partidas em leque, típicas de cratera. E as camadas do alvo não estavam viradas e quebradas como numa explosão: estavam curvadas para cima, num arco suave, como a casca de uma cebola cortada ao meio.

A explicação que fechou o quadro veio em 2005. Os geólogos Guillaume Matton, Michel Jébrak e James Lee, da Universidade do Québec em Montreal e da Queen's University, publicaram na revista Geology um estudo de campo e de datação das rochas do Richat.

DE BAIXO PARA CIMA

O magma empurrou as camadas por baixo e as dobrou num domo; a erosão aplainou o topo e deixou à mostra as bordas de cada camada em círculo.

Segundo o grupo de Matton, a rocha de magma do Richat se formou há cerca de 100 milhões de anos, no Cretáceo, quando o oceano Atlântico se alargava e a África se afastava da América do Sul.

O magma era alcalino, rico em sódio e potássio. Ele não chegou a romper a superfície em grande volume: ficou preso a pouca profundidade, inchou as camadas de cima e abriu as fendas circulares por onde subiu o gabro.

A sequência, do começo até o alvo de hoje:

1. O magma sobe e para pouco abaixo da superfície.

2. As camadas de rocha de cima se curvam num domo.

3. A água quente dissolve o calcário do centro, e o teto desaba.

4. A sílica cola os cacos e forma a brecha do miolo.

5. O vento e a água desgastam o topo do domo por dezenas de milhões de anos.

6. O quartzito resiste e fica de pé em anéis; a rocha mole vira vale.

O círculo quase perfeito vem da própria origem. O magma empurrou a partir de um ponto central, e a pressão se espalhou por igual em todas as direções, como um dedo que levanta uma toalha esticada sobre a mesa.

A erosão fez o resto. Ao cortar o domo na horizontal, ela expôs cada camada numa faixa redonda, na ordem em que foram depositadas: as mais antigas no centro, as mais novas na borda.

O satélite Landsat 9, da NASA e do Serviço Geológico americano (USGS), passa sobre o Adrar a cada 16 dias. Reconfira os 40 km dos anéis no portal EarthExplorer do USGS, em earthexplorer.usgs.gov, na primeira passagem de dezembro de 2026, quando o ar seco do inverno saariano costuma deixar a imagem mais limpa.

 
 
Quiz da edição

Em 2005, qual revista publicou o estudo que explicou a origem do domo erodido do Olho do Saara?

AGeology
BNature
CScience
DBoletim da Sociedade Geológica da América

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