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Um vão de 14 km e uma bacia 3 km abaixo do mar.
O estreito de Gibraltar tem cerca de 60 quilômetros de comprimento e afunila até 14 quilômetros no ponto mais apertado, entre Punta de Tarifa, na Espanha, e Punta Cires, no Marrocos. É a única ligação natural do Mediterrâneo com o oceano aberto.
O que decide o fluxo ali não é a largura, e sim a profundidade da soleira, o degrau rochoso mais alto do fundo do canal. A soleira de Camarinal fica hoje a cerca de 280 metros abaixo da superfície, e qualquer água que entra ou sai do Mediterrâneo precisa passar por cima dela.
A bacia que essa soleira alimenta tem cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados, profundidade média perto de 1.500 metros e um ponto mais fundo de 5.267 metros, a fossa Calypso, no mar Jônico, a sudoeste do Peloponeso.
Um segundo degrau divide a bacia ao meio. A soleira da Sicília, entre a ilha e a Tunísia, fica a cerca de 430 metros de profundidade e separa a bacia ocidental da oriental como uma parede baixa dentro de uma casa comprida.
Com o corredor atlântico fechado no fim do Mioceno, essas duas metades viraram duas depressões independentes. A ocidental secou até algo próximo de 1.500 metros abaixo do nível do oceano; a oriental, mais funda, chegou perto de 3.000 metros no centro.
O relevo respondeu na hora. Os rios que desaguavam no Mediterrâneo passaram a cair de uma altura absurda, e cada um deles escavou para trás um cânion no próprio leito, atrás de um nível de base que despencara.
O Nilo abriu um desses cânions sob o traçado do Cairo, com fundo que as sondagens acham hoje a mais de dois quilômetros abaixo do nível do mar, entulhado de sedimento depositado depois. O Ródano fez o mesmo no sul da França, com o vale enterrado passando por baixo de Lyon.
A Sardenha e a Córsega deixaram de ser ilhas, a Sicília virou um esporão de terra ligado ao continente africano por planície salgada, e caminhar da Tunísia à Calábria virou trajeto seco.
A superfície branca no fundo daquele buraco era feita de evaporito: gesso e halita depositados em ciclos, cada camada marcando um episódio de água entrando e evaporando de novo, com espessura total que chega a dois quilômetros em partes da bacia oriental.
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O volume de sal ali guardado corresponde a perto de 6% de todo o sal dissolvido nos oceanos do planeta, retirado da água do mar global e trancado numa bacia só.
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A barreira que segurava tudo era o arco de rocha entre a península Ibérica e o Magrebe, erguido pela convergência da placa africana contra a euro-asiática. Ela não era alta em termos de montanha, mas bastava para separar duas superfícies de água com quilômetros de desnível.
A pergunta que sobra é o que aconteceu com essa barreira, e a resposta está enterrada sob o próprio leito do estreito.
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