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O barulho chega antes da vista: um pinga-pinga contínuo, de água escorrendo por uma parede de lama, e de vez em quando o baque surdo de um bloco de terra que se solta e cai. No verão da Iacútia, no nordeste da Sibéria, o ar sobre a borda cheira a terra molhada e a matéria vegetal velha.
A parede que pinga tem dezenas de metros de altura. Ela é feita de lama, areia e gelo, em camadas listradas que lembram um bolo cortado, e forma a borda de um buraco em forma de girino deitado na encosta de um morro.
O buraco se chama cratera de Batagaika. Os moradores de Batagay, a vila mais próxima, chamam o lugar de "porta do submundo", e o apelido pegou nos jornais.
A palavra cratera engana. Nada caiu do céu ali e nenhum vulcão abriu a terra. O nome técnico é megaslump (um desmoronamento gigante causado pelo degelo do solo), e ele começou de um jeito banal: com árvores cortadas.
Hoje o buraco passa de um quilômetro de comprimento. Todo verão, a parede recua mais alguns metros morro acima, e a lama que escorre leva junto ossos de bichos extintos e pólen de florestas que ninguém viu.
A parede guarda também um arquivo do clima. As camadas mais fundas de solo congelado expostas ali estão entre as mais antigas já datadas fora da Antártida.
Para entender o buraco, a edição anda em três etapas. Primeiro, onde fica o morro e que tipo de chão existe por baixo dele. Depois, o que a parede expõe e quem foi lá ler as camadas. Por último, por que a borda recua morro acima e o que pode frear o recuo.
A primeira etapa começa no mapa, numa curva do rio Yana, perto do Círculo Polar Ártico.
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I O mapa do dia
I, Um morro de gelo perto do rio Yana
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Da curva do rio Yana ao chão de gelo sob a taiga.
Batagaika fica no distrito de Verkhoyansk, na República de Sakha, o nome oficial da Iacútia dentro da Rússia. A cratera está a uns 10 quilômetros a sudeste da vila de Batagay, na bacia do rio Yana, que corre para o norte até o mar de Laptev.
A região está logo acima do Círculo Polar Ártico, perto de 67 graus e 34 minutos norte. Verkhoyansk, a cidade que dá nome ao distrito, é conhecida como um dos polos do frio do Hemisfério Norte: a Organização Meteorológica Mundial registra ali 67,8 graus negativos, medidos em fevereiro de 1892.
O verão, porém, esquenta. Em junho de 2020, a mesma estação de Verkhoyansk marcou 38 graus positivos, temperatura que a Organização Meteorológica Mundial reconheceu em 2021 como recorde de calor do Ártico.
Essa amplitude explica o chão. Por baixo da vegetação está o permafrost (solo que fica congelado o ano inteiro por pelo menos dois anos seguidos), e na região de Batagay ele desce centenas de metros.
O GELO QUE SEGURA O MORRO
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Boa parte do morro é feita de yedoma, um tipo de permafrost com muito gelo dentro: lama fina de vento e de rio, presa entre cunhas de gelo puro que chegam a ocupar mais da metade do volume do solo.
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O gelo funciona como cimento. Enquanto fica congelado, o morro se sustenta; quando derrete, a lama perde a estrutura e escorre como mingau.
Sobre o yedoma cresce a taiga (a floresta boreal de lariços, um pinheiro que perde as folhas no inverno). A copa das árvores faz sombra e o musgo do chão funciona como cobertor, e os dois juntos impedem o sol do verão de aquecer o solo congelado.
Foi essa proteção que sumiu. Nos anos 1960, a encosta foi desmatada; os relatos mais citados, repetidos pelos pesquisadores que estudam o lugar, falam em abertura de estrada e corte de madeira para a vila. O registro exato de quem cortou e em que ano não foi publicado, e os estudos tratam o desmatamento como o gatilho sem detalhar a ordem de serviço.
Sem a copa e sem o musgo, o sol passou a bater direto no chão. O gelo da camada de cima começou a derreter, a terra afundou, a água correu morro abaixo e abriu um sulco.
Nas imagens de satélite americanas da série Corona, tiradas em 1960 e depois liberadas pelo governo dos Estados Unidos, a encosta ainda aparece inteira. Nas imagens dos anos 1970 e 1980, o sulco já é uma cicatriz que cresce encosta acima.
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II O que tem ali
II, Uma parede que conta 650 mil anos
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O que transforma Batagaika em lugar de pesquisa é a parede de trás, chamada de cabeceira. Ela chega a dezenas de metros de altura e mostra, de uma vez só, camadas que normalmente só sairiam de uma sondagem perfurada.
O geólogo britânico Julian Murton, da Universidade de Sussex, liderou equipes que desceram a parede a partir de 2016. Em artigo de 2017 na revista Quaternary Research, o grupo descreveu as camadas como um registro de climas que se alternaram em centenas de milhares de anos.
A datação mais antiga saiu depois. Em 2022, outro artigo de Murton e colegas na Quaternary Research datou a camada mais funda, perto da base da parede, em cerca de 650 mil anos, pelo método de luminescência (técnica que mede há quanto tempo um grão de areia ficou enterrado sem ver luz).
UM ARQUIVO EMPILHADO
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Cada faixa da parede corresponde a uma época, e as mais antigas ficam embaixo. Faixas escuras guardam solo antigo, com raízes e restos de planta; faixas claras e grossas são cunhas de gelo que cresceram em invernos muito frios.
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A camada antiga tem uma informação extra. Entre ela e as de cima existe um trecho de erosão, sinal de que o permafrost da região já descongelou em parte em algum período quente do passado e voltou a congelar depois.
Pelas datações do grupo de Murton, esse gelo antigo atravessou pelo menos um período interglacial (intervalo quente entre duas eras do gelo) sem sumir por completo. O que os pesquisadores ainda não sabem é a temperatura exata que ele aguentou, porque a camada que registraria esse calor foi parcialmente apagada pela erosão.
A lama que escorre traz também ossos. Em 2018, pesquisadores da Universidade Federal do Nordeste, em Iacutsk, recuperaram na cratera um potro congelado com pele, pelo e órgãos, datado em cerca de 42 mil anos, segundo o anúncio da própria universidade naquele ano.
O potro foi batizado de Potro de Lena, pela espécie de cavalo selvagem extinta que habitava a região. Restos de bisões, mamutes, renas e alces também apareceram na lama da cratera, levados pela água até o fundo.
Pólen e sementes contam a vegetação. Nas camadas de períodos frios aparecem gramíneas da estepe (o campo seco e aberto da era do gelo); nas de períodos quentes aparecem lariços e bétulas, sinal de que a floresta ia e voltava com o clima.
O buraco expõe, portanto, uma linha do tempo que a sondagem só mostraria em tubos de poucos centímetros. Ali ela aparece numa parede inteira, ao ar livre, ao alcance de quem desce com corda e martelo.
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