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A cidade que desce 50 cm por ano

A Cidade do México foi erguida sobre o leito do lago Texcoco, e o centro histórico já desceu mais de 10 metros desde 1900.

Centro histórico da Cidade do México visto do alto, sobre o antigo leito do lago Texcoco.

Centro histórico do México, sobre argila

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A porta de bronze da Catedral Metropolitana raspa na pedra do piso quando o sacristão a empurra para a primeira missa. O arranhado muda de lugar a cada década, porque a nave inteira desce, e desce torta. Do lado do altar dos Reis, o piso ficou tão fora de nível que uma bolinha solta no mármore rola sozinha em direção ao poente.

O desnível chegou a ultrapassar dois metros entre pontos da mesma planta. Entre 1993 e 1998, os engenheiros Enrique Tamez, Enrique Santoyo e Efraín Ovando Shelley comandaram uma obra que escavou poços verticais sob as fundações e retirou argila mole dos trechos que ainda estavam altos, para que a parte alta descesse até encontrar a parte baixa. A catedral não foi levantada. Ela foi convencida a afundar por igual.

O caso não pertence a um prédio. Pertence ao chão de uma metrópole inteira. No levantamento de Estelle Chaussard, Sara Havazli, Heresh Fattahi, Enrique Cabral-Cano e Darío Solano-Rojas publicado no Journal of Geophysical Research em 2021, com dados de satélite e de GPS, partes do leste da bacia descem perto de 50 centímetros por ano, e o compactamento da argila aparece como processo sem volta, mesmo que a extração de água parasse amanhã.

A explicação começa muito antes das bombas elétricas. A capital mexicana ocupa o fundo de uma bacia que não tem saída natural para o mar, a 2.240 metros de altitude, num ponto onde havia cinco lagos rasos encaixados um no outro. A cidade que existe hoje está sentada sobre o sedimento que se depositou nesse fundo durante milhares de anos, um material que tem mais água do que sólido dentro dele.

O primeiro passo para enxergar o afundamento não está em nenhuma obra de engenharia. Está no relevo em volta, nas montanhas que fecham o vale por todos os lados e transformaram o vale numa banheira sem ralo.

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I  O mapa do dia

Uma banheira sem ralo a 2.240 metros

A capital mexicana ocupa o fundo seco de cinco lagos.

O Vale do México fica no centro-sul do país, dentro do Eixo Neovulcânico Transversal, a faixa de vulcões que atravessa o México de oeste a leste. A leste sobem o Popocatépetl, com 5.426 metros, e o Iztaccíhuatl, com 5.230. A oeste está a Serra das Cruzes. Ao sul, a Serra do Ajusco e o campo de lava do Xitle. Ao norte, serras mais baixas fecham o resto do círculo.

O que essas montanhas produzem é uma bacia endorreica: toda a chuva que cai ali dentro escorre para o meio e não encontra caminho até o oceano. A água ficava parada no ponto mais baixo e evaporava. Ao longo do tempo, formou-se uma sequência de cinco corpos de água rasos e conectados em degraus, com Zumpango e Xaltocan ao norte, Texcoco no centro e no ponto mais baixo, Xochimilco e Chalco ao sul.

Texcoco recebia a água de todos os outros e não devolvia para lugar nenhum, então o sal se acumulou nele. Era um lago salobro, largo e raso, com profundidade média de poucos metros e margens que avançavam e recuavam conforme a estação de chuvas.

O ILHÉU QUE VIROU CAPITAL

Em 1325, um grupo mexica se instalou num ilhéu no lado ocidental do Texcoco e fundou ali Tenochtitlán. A escolha tinha lógica militar: a água servia de fosso. Ao longo de dois séculos, a cidade cresceu por aterro, com chinampas, diques e três calçadas elevadas ligando a ilha à terra firme.

A capital mexicana não foi construída perto de um lago nem na beira de um lago: ela está em cima do fundo dele, sobre uma camada de sedimento lacustre que passa dos 50 metros de espessura em vários bairros do centro e do leste.

Esse fundo não é areia nem rocha. É uma argila cinza-esverdeada, formada por cinza vulcânica que caiu na água e se depositou devagar, misturada com restos de algas e conchas microscópicas.

A pergunta que sobra é de material. Se a cidade se apoia num sedimento que já estava ali antes dela, por que o chão só começou a descer rápido no século 20?

 
 

II  O que tem ali

A argila que ainda tem o lago dentro

A resposta está na composição do sedimento. A argila do Vale do México guarda entre duas e quatro vezes mais água do que sólido em peso, uma proporção rara em solos naturais e que a engenharia geotécnica mundial trata como caso extremo. Enquanto essa água permanece nos poros, ela suporta parte do peso do que está em cima. Quando a água sai, o grão de argila encosta no grão vizinho e a camada inteira encolhe.

Quem tira a água são os poços. A capital e a zona metropolitana bebem majoritariamente do aquífero que fica sob a cidade, complementado pelo Sistema Cutzamala, que bombeia água de reservatórios do estado de México e de Michoacán morro acima, mais de mil metros de desnível. Cada metro cúbico retirado do subsolo baixa a pressão dentro dos poros da argila e o terreno responde descendo.

A drenagem da superfície veio antes e preparou o terreno. Depois de enchentes repetidas, a coroa espanhola contratou em 1607 o cosmógrafo Enrico Martínez para abrir um corte artificial no norte da bacia, o Tajo de Nochistongo, para escoar parte da água para fora. A obra falhou em 1629, e a inundação que se seguiu manteve a cidade coberta de água por cerca de cinco anos.

"Ficamos admirados e dizíamos que aquilo parecia os encantamentos que contam no livro de Amadis, pelas grandes torres e edifícios que havia dentro da água."

Bernal Díaz del Castillo, Historia verdadera de la conquista de la Nueva España, 1568.

Em 1900, Porfirio Díaz inaugurou o Grande Canal de Desagüe, com 47 quilômetros de canal e um túnel na saída, a obra que finalmente esvaziou o que restava dos lagos e entregou à cidade um fundo seco para ocupar.

O século seguinte fechou a conta. As bombas elétricas multiplicaram a retirada de água subterrânea a partir dos anos 1930, e o engenheiro mexicano Nabor Carrillo demonstrou nos anos 1940 e 1950 que o afundamento da cidade vinha da consolidação da argila causada por essa extração, e não do peso dos edifícios.

O que restou do Texcoco hoje são espelhos rasos e brejos salgados no lado nordeste, mantidos por bombeamento e por projetos de recuperação ambiental na área onde o aeroporto de Texcoco chegou a ser iniciado e depois cancelado em 2018.

 

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III  Por que a linha passa ali

O mapa do afundamento copia o mapa do lago

Sobreponha a carta do afundamento medido por satélite à carta dos lagos coloniais e as duas manchas coincidem quase linha por linha. Onde havia água, o chão desce. Onde havia rocha vulcânica ou encosta de serra, o chão fica quieto.

Bairros do poente, como Tacubaya, Lomas de Chapultepec e Santa Fé, estão assentados em tufo vulcânico e sedimento firme, e registram movimento próximo de zero. Já Iztapalapa, Ciudad Nezahualcóyotl, Ecatepec, Chalco e Valle de Chalco ocupam o fundo do antigo Texcoco e do antigo Chalco, e concentram as taxas mais altas medidas na região metropolitana.

O estrago não vem do afundamento em si, e sim da diferença de velocidade entre um ponto e o ponto vizinho. Uma faixa de terreno que desce 40 centímetros por ano encostada numa que desce 5 rasga o que estiver atravessando a fronteira entre as duas: rede de água, coletor de esgoto, trilho de metrô, muro de casa. Em Valle de Chalco e em Iztapalapa, o resultado aparece como fissuras abertas na rua, algumas com metros de profundidade.

A rede de água perde perto de 40% do volume tratado em vazamentos, boa parte deles em canos partidos pelo movimento do solo. O escoamento também virou problema, porque o Grande Canal foi projetado para correr por gravidade e perdeu a inclinação conforme a cidade desceu, o que obrigou a instalar estações de bombeamento e a abrir o Túnel Emissor Oriente, com 62 quilômetros, entregue em 2019.

1. Abra uma imagem de satélite do Vale do México e localize o aeroporto internacional Benito Juárez, no lado leste do centro. Ele está em cima do leito do Texcoco.

2. Corra o olho para o poente até Chapultepec e repare que o relevo sobe, com encosta e vegetação densa. Ali começa o terreno firme.

3. Volte para o leste e procure as ruas retas de Ciudad Nezahualcóyotl. O traçado em xadrez perfeito só existe porque o loteamento nasceu sobre um fundo de lago plano e seco.

O Anjo da Independência, inaugurado em 1910 na avenida Reforma, ganhou degraus na base ao longo do século porque a calçada em volta desceu mais do que o monumento, apoiado numa fundação profunda. O número de degraus foi crescendo obra após obra, e cada degrau novo é um registro público de quanto o entorno cedeu.

"Quantos monumentos da sua cidade ganharam degraus sem que ninguém tenha decidido construí-los?"

As taxas de afundamento e o mapa de fissuras são atualizados pelo Instituto de Geofísica da UNAM e pelo Serviço Geológico Mexicano, e o nível dos reservatórios do Sistema Cutzamala sai em boletim semanal da Conagua. Reconfira nessas fontes depois do fim da temporada de chuvas, em outubro, antes de repetir qualquer número desta edição.

 
 

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Entre 1993 e 1998, o que a obra liderada por Enrique Tamez, Enrique Santoyo e Efraín Ovando Shelley fez para nivelar a Catedral Metropolitana?

AInjetaram concreto sob os trechos baixos para levantar o piso
BEscavaram poços verticais e retiraram argila mole dos trechos altos, para a parte alta descer até a baixa
CCravaram estacas de aço sob toda a fundação para travar o afundamento
DBombearam água de volta para o subsolo sob a catedral

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