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A cidade norueguesa que recebe sol de 3 espelhos
Rjukan passa de setembro a março na sombra da montanha, e desde 2013 um feixe refletido acende a praça do centro.
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Feixe dos espelhos na praça de Rjukan
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O ar da praça cheira a lenha queimada, e o gelo do calçamento estala sob as botas às onze da manhã. Em Rjukan, no sul da Noruega, o céu está azul lá em cima, mas a luz do sol para no meio da encosta norte, bem acima dos telhados, e não desce até a rua.
Perto do meio-dia, um retângulo claro aparece no chão de Torget, a praça central. Crianças correm até ele, gente mais velha para com o rosto virado para cima, e alguém abre o zíper do casaco pela primeira vez na manhã.
A luz vem de três espelhos presos no alto da encosta norte. Cada um tem 17 metros quadrados, somando 51, e gira sozinho sobre um motor comandado por computador, acompanhando o sol pelo céu. Os números são da prefeitura de Tinn, o município que administra Rjukan, na apresentação do projeto em 2013.
O nome técnico do aparelho é heliostato (espelho que gira seguindo o sol para mandar o reflexo sempre ao mesmo ponto). Os moradores chamam o conjunto de Solspeilet, o espelho do sol em norueguês.
Os espelhos foram inaugurados em 30 de outubro de 2013. Até então, quem vivia no centro da cidade passava de setembro a março sem sol direto na calçada de casa, só com a claridade difusa que escorre do céu.
A ideia é mais velha que os espelhos. Um século antes, o engenheiro que fundou a cidade já tinha pensado nela, e desistiu por falta de tecnologia.
Para entender a praça iluminada, a edição anda em três etapas. Primeiro, onde fica o vale e por que ele é tão fundo. Depois, o que foi construído nele, por quem e para quê. Por último, a conta de geometria que marca o dia em que o sol some da cidade e o dia em que ele volta.
A primeira etapa começa no mapa, num corte estreito entre dois planaltos de Telemark.
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I O mapa do dia
I, Um corte fundo entre dois planaltos
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Do planalto de Telemark ao piso sem sol do vale.
Rjukan fica no município de Tinn, na região de Telemark, a umas três horas de carro a oeste de Oslo. A cidade está quase na mesma latitude da capital, perto de 59 graus e 52 minutos norte.
O que muda tudo é o relevo. Rjukan ocupa o fundo do Vestfjorddalen, o vale do fiorde oeste, um corte estreito que corre de oeste para leste entre o lago Møsvatn e o lago Tinnsjø.
O rio Måna desce pelo fundo desse corte. Ao longo de milhares de anos, o gelo das glaciações e depois a água cavaram o vale em forma de U, com paredes quase verticais e um piso estreito onde mal cabem a estrada, o rio e duas ou três fileiras de casas.
Ao norte, a parede sobe até a borda do Hardangervidda, o maior planalto de montanha da Europa. Ao sul, a encosta leva ao Gaustatoppen, o pico de 1.883 metros que domina a paisagem de Telemark, pela altitude registrada pela Kartverket, a agência de mapas da Noruega.
O PAREDÃO DO SUL
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A cidade está no piso do vale, bem abaixo dos cumes em volta. Como o sol de inverno na Noruega anda baixo e sempre pelo lado sul do céu, a parede sul do vale fica entre ele e a cidade.
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Essa parede sul é a peça decisiva. No verão, o sol sobe alto e passa por cima dela sem problema. A partir do fim de setembro, ele já não alcança a altura da crista em nenhuma hora do dia, e o centro de Rjukan entra na sombra até março.
A encosta norte recebe o tratamento oposto. Ela fica virada para o sul e pega sol o inverno inteiro, e é lá em cima, nesse lado iluminado, que os espelhos foram presos.
O desenho do vale explica também a escolha da praça. Torget fica no miolo da cidade, a céu aberto, com o comércio em volta, e dá para mirar nela um feixe vindo do alto da encosta norte sem nenhum prédio no caminho.
Visto de cima, no Google Earth, o vale parece um risco escuro entre dois tapetes brancos de neve. O risco é a sombra, e ela tem data para chegar e data para ir embora.
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II O que tem ali
II, A cidade que a cachoeira pagou
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Rjukan nasceu por causa de uma queda d'água. O engenheiro e industrial Sam Eyde comprou os direitos da cachoeira Rjukanfossen no começo do século 20 e, em 1905, fundou com investidores a Norsk Hydro, hoje uma das maiores empresas da Noruega.
A energia da cachoeira servia a um processo químico novo. O método Birkeland-Eyde, criado por Eyde e pelo físico Kristian Birkeland, usava um arco elétrico (uma faísca contínua e muito quente) para tirar nitrogênio do ar e fabricar adubo, o salitre norueguês.
O processo gastava eletricidade em quantidade enorme. Daí a Norsk Hydro ergueu no vale a usina de Vemork, inaugurada em 1911 e apresentada na época como a maior hidrelétrica do mundo.
Em poucos anos, um punhado de fazendas virou cidade operária. Eyde mandou construir casas, escola, igreja e hospital no piso do vale, junto das fábricas, e os operários passaram a viver meio ano na sombra.
A IDEIA DE 1913
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O próprio Eyde percebeu o problema. Em 1913, segundo o histórico publicado pela prefeitura de Tinn, ele sugeriu espelhos grandes no alto da montanha para refletir sol até a cidade, mas a engenharia da época não tinha como mover espelhos daquele porte com precisão.
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A saída da empresa foi levar as pessoas até o sol. Em 1928, a Norsk Hydro inaugurou o Krossobanen, um teleférico que sobe a encosta norte e deixa o passageiro no trecho iluminado, pago pela companhia como presente aos moradores.
O Krossobanen ainda funciona. Nos meses de sombra, segue como o jeito mais rápido de trocar o frio escuro do centro pelo sol da encosta, em poucos minutos de subida dentro de uma cabine pendurada no cabo.
A usina de Vemork ganhou outra fama na Segunda Guerra Mundial. Ela produzia água pesada (água com um tipo mais pesado de hidrogênio, útil em pesquisa nuclear), e em 1943 sabotadores noruegueses treinados pelos britânicos explodiram parte da produção para que a Alemanha nazista não a usasse.
O conjunto industrial de Rjukan e Notodden entrou na lista de Patrimônio Mundial da Unesco em 2015. A cidade que a cachoeira pagou virou museu a céu aberto, e continuava sem sol no inverno.
Quem tirou a ideia de Eyde da gaveta foi o artista plástico Martin Andersen, que se mudou para Rjukan em 2002. Ele passou anos defendendo o projeto até conseguir apoio da prefeitura e de empresas locais, e os três heliostatos subiram a encosta de helicóptero em 2013.
Os espelhos só funcionam com céu limpo. Em dia nublado, não há sol na encosta para refletir, e a praça fica igual ao resto do vale.
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