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A Cidade Murada de Kowloon, onde 33 mil pessoas cabiam em 2,6 hectares

Um quarteirão de Hong Kong cresceu sem lei, sem elevador e sem plano até 14 andares. A demolição de 1993 apagou tudo.

Prédios colados da Cidade Murada de Kowloon, em Hong Kong, com antenas nos telhados.

A Cidade Murada de Kowloon nos anos 1980

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O avião passa tão baixo que a louça treme na prateleira. O ronco das turbinas enche o beco por alguns segundos, abafa o rádio e a máquina de costura, e some na direção da pista de Kai Tak, o antigo aeroporto de Hong Kong.

No chão do beco, a água pinga sem parar. Ela escorre de canos presos às paredes, centenas deles, emaranhados com fios elétricos e mangueiras. O piso fica sempre úmido, e o ar cheira a óleo de fritura, a peixe e a mofo.

A luz do dia quase não chega até ali. Os prédios encostam uns nos outros, janela contra janela, e a claridade vem de lâmpadas fluorescentes acesas a qualquer hora. Um morador anda de casaco no calor de agosto só para não se molhar com as gotas.

No alto, a cena é outra. Nos telhados planos, crianças empinam pipa entre antenas de televisão, e roupa lavada seca em varais esticados de um prédio ao vizinho. Quem sobe até lá pode atravessar o quarteirão inteiro sem tocar a rua, pulando de laje em laje.

Esse quarteirão era a Cidade Murada de Kowloon, um bloco de concreto encravado no bairro de Kowloon City, ao norte da baía de Hong Kong. Os moradores o chamavam de Hak Nam (cidade da escuridão, em cantonês), por causa dos becos sem sol.

Nenhum arquiteto desenhou aquele bloco. Cada prédio subiu sozinho, puxado por um dono diferente, e os andares novos se apoiavam nos antigos sem projeto, sem licença e sem fiscal da prefeitura.

O resultado parecia uma rocha única, com paredes cheias de janelas e caixas de ar-condicionado. Visto da rua, o quarteirão não tinha frestas: era uma muralha de apartamentos com o mesmo teto em quase toda a extensão.

A altura igual dos telhados tinha explicação, e ela estava no céu, na rota dos aviões que desciam sobre o bairro.

A edição começa pelo tamanho exato desse bloco e pelo limite que ninguém conseguia ultrapassar.

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I  O mapa do dia

Um bloco de concreto sem frestas

Um retângulo de 2,6 hectares, 350 prédios colados e um teto imposto pelos aviões.

A Cidade Murada de Kowloon ocupava cerca de 2,6 hectares, um terreno de mais ou menos 210 metros por 120. Cabem ali uns três campos de futebol. Sobre esse retângulo se espremiam cerca de 350 prédios, colados uns nos outros.

Os prédios tinham até 14 andares, e quase nenhum tinha elevador. Quem morava no 13º andar subia a pé, com sacolas de compras e botijão de gás, por escadas estreitas e sem janela.

O teto do quarteirão tinha uma causa concreta: o Aeroporto de Kai Tak ficava a menos de dois quilômetros. Os aviões desciam rentes aos prédios, e o governo de Hong Kong proibia construção acima de uma altura fixa na rota de aproximação. Os construtores da Cidade Murada respeitavam essa linha imaginária, mesmo ignorando todas as outras regras.

Assim, o bloco subiu até o limite e parou. Do alto, a cidade parecia uma mesa de pedra cortada no mesmo nível, com antenas e varais por cima.

DENSIDADE SEM PARALELO

Um levantamento do governo de Hong Kong feito em 1987, antes da desocupação, contou cerca de 33 mil moradores no quarteirão. Dividido pela área, o número dá algo perto de 1,2 milhão de pessoas por quilômetro quadrado.

Para comparar, Manhattan tem hoje perto de 28 mil habitantes por quilômetro quadrado, segundo o Censo dos Estados Unidos de 2020. A Cidade Murada era cerca de 40 vezes mais apertada.

Os apartamentos eram pequenos. Muitos tinham menos de 25 metros quadrados e abrigavam famílias inteiras, com beliches, fogão e oficina no mesmo cômodo.

As ruas internas eram becos de um metro e pouco de largura, sem nome oficial. Eles serpenteavam entre os prédios, subiam e desciam escadas e às vezes passavam por dentro de um edifício. Moradores antigos se orientavam pelas lojas e pelas portas; visitantes se perdiam em minutos.

Em volta do bloco corriam ruas comuns de Kowloon City, com ônibus, feiras e lojas de bairro. A fronteira entre o quarteirão e a cidade era apenas a calçada: um passo separava a rua asfaltada do primeiro beco escuro.

A muralha de pedra que dava nome ao lugar já não existia. Durante a ocupação japonesa de Hong Kong, entre 1941 e 1945, os soldados desmontaram os muros e usaram as pedras para ampliar a pista de Kai Tak. O nome ficou; a muralha virou concreto de apartamento.

 
 

II  O que tem ali

Dentistas, bolinhos de peixe e poços no chão

Dentro do bloco funcionava uma economia inteira. Havia fábricas de bolinho de peixe, de macarrão e de doces, açougues, oficinas de metal e de plástico, tudo instalado em salas de apartamento e em porões sem ventilação.

Os dentistas eram a marca mais famosa da Cidade Murada. Muitos tinham estudado na China continental, e seus diplomas não valiam em Hong Kong. Fora do quarteirão, eles não podiam atender; dentro, ninguém cobrava licença. As placas de consultório se enfileiravam na fachada que dava para a Tung Tau Tsuen Road.

O preço baixo atraía clientes de toda a cidade. Moradores de outros bairros entravam no bloco só para tratar um dente ou consultar um médico sem registro.

A ÁGUA QUE VINHA DO CHÃO

Água encanada quase não havia. O governo instalou poucos pontos públicos de torneira, insuficientes para dezenas de milhares de pessoas. Os moradores perfuraram poços dentro do terreno e bombeavam a água para caixas nos telhados.

Dali, a água descia por canos improvisados até cada apartamento. Os canos vazavam, e o gotejamento constante dos becos vinha desse sistema montado à mão.

A eletricidade seguia o mesmo caminho. Parte vinha de ligações regulares, parte de gatos puxados da rede. Os fios corriam pelas paredes em feixes grossos, ao lado dos canos de água.

A Cidade Murada também teve fama de esconderijo de crime. Entre as décadas de 1950 e 1970, tríades (organizações criminosas chinesas) controlavam casas de ópio, jogo e prostituição no quarteirão. A polícia de Hong Kong fez operações grandes em 1973 e 1974 e prendeu centenas de suspeitos, e a presença das tríades caiu bastante a partir dali.

Correio chegava. Um carteiro entrava no bloco todo dia e conhecia os becos de cor, e havia escolas, templos e uma creche funcionando nos andares baixos.

A maior parte dos moradores levava uma vida comum de trabalhador pobre: acordava cedo, trabalhava na oficina do térreo e voltava para casa pela mesma escada.

Ninguém sabe com exatidão quantos moradores houve no auge. O levantamento de 1987 é a contagem mais confiável, porque foi feito porta a porta para calcular as indenizações. Antes dele, nenhum órgão contava o quarteirão, e os números anteriores não têm dono nem método.

 

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III  Por que a linha passa ali

O tratado que deixou o quarteirão sem dono

A linha que cercava a Cidade Murada vinha de um papel assinado em 1898. Naquele ano, a China e o Reino Unido firmaram a Convenção de Pequim, que arrendou aos britânicos os Novos Territórios (a área continental ao norte de Kowloon) por 99 anos.

O texto abriu uma exceção. O forte chinês de Kowloon, construído pela dinastia Qing em 1847, ficaria sob autoridade chinesa, com seus oficiais e soldados. Em volta, tudo virou território britânico; dentro dos muros, a China seguia mandando.

A exceção durou pouco. Em 1899, as tropas britânicas expulsaram os oficiais chineses do forte. A China nunca aceitou a expulsão, e o Reino Unido nunca assumiu a administração do lugar.

UM ENCLAVE QUE NINGUÉM GOVERNAVA

O forte virou um enclave (pedaço de território cercado por outro). Pequim dizia que o terreno era chinês; Londres evitava agir para não abrir crise diplomática. A polícia de Hong Kong entrava pouco, e os fiscais de obra quase nunca.

Depois de 1949, com a vitória comunista na guerra civil chinesa, refugiados do continente chegaram a Hong Kong aos milhares. Muitos se instalaram no antigo forte, onde ninguém cobrava aluguel do governo nem licença de construção. Os barracos viraram prédios de tijolo, e os prédios de tijolo viraram torres de concreto.

Em 1984, a Declaração Conjunta Sino-Britânica marcou a devolução de Hong Kong à China para 1997. O impasse sobre o quarteirão perdia o motivo, e os dois governos anunciaram juntos, em janeiro de 1987, que a Cidade Murada seria demolida.

A desocupação levou anos. O governo de Hong Kong pagou indenização a moradores e comerciantes, e alguns resistiram na Justiça até o último prazo. As máquinas começaram a derrubar o bloco em 23 de março de 1993, e o trabalho terminou em abril de 1994.

No lugar ficou o Kowloon Walled City Park, inaugurado em dezembro de 1995. O parque guarda o yamen (antiga sede administrativa do forte), restos da porta sul e uma maquete de bronze do quarteirão antes da demolição.

“Como cabiam 33 mil pessoas num terreno do tamanho de três campos de futebol?”

A resposta está na soma: prédios colados, sem recuo, subindo até o teto que os aviões impunham, com famílias inteiras em cômodos de 25 metros quadrados.

O Kowloon Walled City Park abre todos os dias, das 6h30 às 23h, segundo a página do parque no Leisure and Cultural Services Department (LCSD), o órgão de lazer de Hong Kong. Reconfira o horário em lcsd.gov.hk em 1º de dezembro de 2026, antes da temporada de visitas do fim de ano.

 
 

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Por que os cerca de 350 prédios da Cidade Murada de Kowloon paravam todos na mesma altura, em até 14 andares?

AUm arquiteto contratado pelo governo de Hong Kong limitou o projeto a 14 andares
BO solo da região não sustentava prédios mais altos
CA rota de descida dos aviões do Aeroporto de Kai Tak impunha um teto de altura
DUma lei de incêndio de Hong Kong proibia prédios altos sem elevador

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