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ED 054
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A caverna de 38,5 milhões de metros cúbicos no Vietnã

Um lenhador sentiu o vento frio da entrada em 1991. Dentro dela cresce floresta e se forma nuvem.

Dolina com mata e névoa dentro da caverna Hang Son Doong, no Vietnã.

Luz e mata dentro da Hang Son Doong

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O ar que saía da fenda era frio e úmido, e trazia o barulho de água correndo em algum ponto lá embaixo. Em 1991, na selva da província de Quang Binh, no centro do Vietnã, o lenhador Hồ Khanh se abrigava de uma chuva forte quando sentiu esse vento no rosto.

Ele caminhou até a boca da abertura. Era um buraco no pé de uma encosta de calcário, coberto de mato, com uma queda escura logo depois das pedras. Do fundo subia o som de um rio.

Hồ Khanh não desceu. Estava sozinho, sem corda e sem luz forte, e voltou para casa levando só a lembrança do vento gelado. Nos anos seguintes tentou achar o lugar outra vez e não conseguiu: a mata fechada da serra apaga uma trilha em poucas semanas.

Ele reencontrou a fenda em 2008. No ano seguinte, guiou até ela uma equipe de espeleólogos (pesquisadores de cavernas) da British Cave Research Association, a associação britânica de pesquisa em cavernas, que explorava a região desde 1990 em parceria com a Universidade de Ciência de Hanói.

A equipe, chefiada pelo casal Howard e Deb Limbert, desceu em abril de 2009. Achou um rio subterrâneo, galerias que seguiam escuridão adentro e, quilômetros depois, uma parede de pedra que barrou o avanço.

Os números saíram da topografia feita pelos próprios Limbert entre 2009 e 2010. Pela conta da associação britânica, a Hang Son Doong guarda 38,5 milhões de metros cúbicos de espaço vazio, a maior galeria de caverna conhecida no planeta.

Lá dentro cresce uma floresta com árvores de copa alta, e em certos trechos uma nuvem se forma sob o teto de pedra, a centenas de metros do sol mais próximo.

Três perguntas saem dessa descida. Onde fica a caverna e como ela se desenha por dentro. O que vive e cresce num lugar escuro com o teto furado. E por que o rio escavou justamente naquela faixa de serra.

A resposta começa pelo nome da caverna e pelo parque nacional que guarda a entrada, colado na fronteira com o Laos.

Continue lendo ↓

 
 

I  O mapa do dia

I, Onde a serra esconde a entrada

Da fenda na selva à muralha de 90 metros.

A Hang Son Doong fica no Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang, na província de Quang Binh, a poucos quilômetros da fronteira com o Laos. O nome em vietnamita, Hang Sơn Đoòng, quer dizer caverna do rio da montanha: hang é caverna, sơn é montanha, đoòng é o rio.

O parque entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2003, pelo relevo de calcário, e teve o título ampliado em 2015, pela fauna e pela flora. A UNESCO descreve a área como um dos maiores blocos de carste da Ásia (carste é o relevo que a água cava no calcário, cheio de grutas, sumidouros e rios que somem no chão).

Chegar à entrada leva dois dias. A trilha sai da estrada Ho Chi Minh, desce o vale do rio Rao Thuong e atravessa antes a Hang En, a caverna vizinha, onde os grupos acampam numa praia de areia debaixo da terra.

Da boca da Hang Son Doong, a descida começa por uma corda de uns 80 metros até o leito do rio. Lá embaixo, a galeria principal corre por mais de 5 quilômetros, segundo a topografia da British Cave Research Association de 2010.

A PAREDE QUE PAROU A EQUIPE

No fim da galeria, os Limbert deram de cara com uma muralha de calcita (o mineral branco que a água deposita ao pingar do calcário) de 90 metros de altura. Os exploradores a batizaram de Grande Muralha do Vietnã.

Em 2009 a equipe não conseguiu subir. Voltou em março de 2010 com equipamento de escalada, venceu a parede e viu do alto a saída da caverna, uma abertura que dá de novo na selva.

Ao longo do caminho, a mesma topografia registrou trechos com mais de 200 metros de altura e 150 metros de largura. Um avião de passageiros de grande porte caberia deitado em várias dessas salas.

Antes de 2009, o título de maior galeria do mundo era da Deer Cave, a caverna do cervo, no Parque Nacional Gunung Mulu, na ilha de Bornéu, na Malásia. A Hang Son Doong passou à frente em volume, pela conta da própria associação britânica.

O desenho interno tem dois pontos em que a luz do dia entra. São os buracos no teto que a segunda parte percorre, onde a caverna ganha árvore, bicho e céu próprio.

 
 

II  O que tem ali

II, A floresta que cresce no escuro

Os dois buracos no teto são dolinas, crateras que se abrem quando o teto de uma caverna desaba. Pela luz que entra ali, a Hang Son Doong tem trechos de mata que não precisam de fresta para viver: recebem sol direto por algumas horas do dia.

A primeira dolina ganhou dos exploradores britânicos o apelido de Watch Out for Dinosaurs, cuidado com os dinossauros. O nome saiu da impressão de quem chegou ali depois de horas no escuro e deu com samambaias gigantes e cipós pendurados.

A segunda, mais adiante, virou Garden of Edam, um trocadilho em inglês com Jardim do Éden. Ali a mata é mais fechada, e macacos da floresta de cima descem pelas paredes da cratera.

POR QUE CHOVE LÁ DENTRO

A nuvem da Hang Son Doong nasce da diferença de temperatura. O ar da caverna fica mais frio que o da selva lá fora; quando o ar quente e úmido entra pelas dolinas e encosta no ar frio, o vapor condensa e vira névoa sob o teto.

Nos dias de maior contraste, a névoa se junta em faixas que flutuam dentro das salas. Os guias do parque contam que o vento sopra de dentro para fora da caverna em boa parte do ano, o mesmo vento frio que Hồ Khanh sentiu no rosto em 1991.

O chão guarda outra peça rara: as pérolas de caverna, bolinhas de calcita que crescem dentro de poças rasas. A água que pinga do teto gira os grãos de areia e deposita camadas de mineral em volta, até formar esferas do tamanho de uma bola de tênis.

As estalagmites (colunas que sobem do chão, formadas pelo gotejamento) passam de 70 metros em alguns pontos, segundo o levantamento da British Cave Research Association de 2010. A maior delas ganhou o apelido de Mão do Cão, pelo formato da ponta.

Quem entra hoje entra por autorização. Desde 2013, uma única empresa, a Oxalis Adventure, tem licença do governo vietnamita para levar visitantes à caverna, numa expedição de quatro dias com porteiros, guias e espeleólogos.

A empresa limita as vagas a cerca de mil por ano e fecha a caverna de setembro a janeiro, quando as chuvas enchem o rio subterrâneo. O que resta explicar é por que esse rio abriu tanto espaço justamente ali, e a terceira parte vai à rocha.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, O rio que seguiu a rachadura

O calcário de Phong Nha-Ke Bang começou como fundo de mar. Conchas e esqueletos de bichos marinhos se acumularam por milhões de anos e viraram rocha na era Paleozoica; a UNESCO data os blocos mais antigos do parque em mais de 400 milhões de anos.

Depois, o choque de placas que ergueu a Cordilheira Anamita, a serra que separa o Vietnã do Laos, levantou esse fundo de mar e o quebrou. A rocha ficou cortada por falhas, as rachaduras longas por onde um bloco escorrega contra o outro.

Foi numa dessas falhas que o rio Rao Thuong entrou. A água da chuva carrega gás carbônico do ar e do solo e vira um ácido fraco, o ácido carbônico, que dissolve o calcário devagar. Onde a rocha já estava rachada, a água passou mais rápido e cavou mais fundo.

A LINHA QUE O RIO DESENHOU

A galeria da Hang Son Doong corre reta porque segue a falha. Os Limbert estimam que o rio levou de 2 a 5 milhões de anos para abrir o túnel, pela conta publicada pela British Cave Research Association em 2010.

A monção explica a força do rio. A serra Anamita segura as nuvens que chegam do mar da China Meridional, e a chuva despenca de setembro a dezembro. É nessa estação que o Rao Thuong enche e segue alargando a galeria.

Nos pontos em que o teto ficou fino demais, o calcário cedeu. Assim nasceram as duas dolinas: o rio tirou a rocha de baixo, e a de cima caiu. A mata das crateras cresce sobre os blocos do teto antigo.

A mesma falha explica por que a entrada ficou escondida até 1991. Ela se abre no fundo de um vale fechado, longe de aldeia e de estrada, numa área que a guerra deixou cheia de bomba não detonada, e poucos moradores se arriscavam a subir a serra.

1. Abra um mapa do Vietnã e ache Dong Hoi, capital da província de Quang Binh, no litoral central.

2. Siga para oeste até o Parque Nacional Phong Nha-Ke Bang, já perto da linha da fronteira com o Laos.

3. Procure o vale do rio Rao Thuong: a caverna corre por baixo dele, alinhada com a serra.

"Quantas cavernas desse tamanho ainda estão escondidas sob a mata da serra Anamita?"

A temporada de expedições da Oxalis Adventure vai de fevereiro a agosto, e as datas de 2027 saem no site da empresa. Reconfira o calendário em oxalis.com.vn na primeira semana de novembro de 2026.

 
 
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Quiz da edição

Antes da Hang Son Doong assumir a liderança em 2009, o título de maior galeria de caverna do mundo pertencia a qual caverna?

ASarawak Chamber, na mesma Gunung Mulu
BHang En, a vizinha onde os grupos acampam
CDeer Cave, no Parque Nacional Gunung Mulu, na Malásia
DMammoth Cave, nos Estados Unidos

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ED 055 · amanhã às 20:20

A ilha de 24 km que os mapas mostraram por 136 anos

Em 2012, um navio australiano parou sobre a ilha Sandy, no mar de Coral, e o sonar achou 1.400 metros de água.

 
 
 

Fecha o atlas. Até amanhã.

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