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A cachoeira de 3.500 metros que ninguém vê

Entre a Groenlândia e a Islândia, a água gelada dos mares nórdicos escorrega por um degrau de pedra submerso e desce até o fundo do Atlântico.

O Estreito da Dinamarca, entre a Groenlândia e a Islândia.

O estreito visto da costa noroeste islandesa

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O guincho range e o cabo de aço sobe pingando água a menos de um grau, tão fria que a palma da mão sem luva gruda no metal por um instante. O convés cheira a sal e a diesel queimado, e o vento vem por cima do gelo à deriva que passa de bombordo, com aquele estalo seco de placa raspando em placa. Sob a quilha, a seiscentos metros, corre uma coisa que nenhum instrumento da ponte enxerga.

O navio está no Estreito da Dinamarca, o corredor de mar entre a costa leste da Groenlândia e a ponta noroeste da Islândia, com cerca de 300 quilômetros de largura no trecho mais apertado. O fundo ali sobe num degrau de pedra, uma soleira a pouco mais de 600 metros de profundidade, e logo adiante o terreno some para baixo, rumo à bacia de Irminger, a mais de 3 mil metros.

A água gelada dos mares nórdicos escorrega por essa soleira e desce cerca de 3.500 metros. O National Ocean Service, serviço oceânico da NOAA, agência de oceano e atmosfera dos Estados Unidos, descreve a queda como a maior cachoeira do planeta. A vazão foi medida por fundeios de correntômetros ancorados no estreito: Kerstin Jochumsen e colegas publicaram em 2012, no Journal of Geophysical Research, a série de 1996 a 2011, com média de 3,4 milhões de metros cúbicos por segundo e estabilidade teimosa nos 15 anos.

A palavra cachoeira engana. Nada ali cai livre nem faz barulho. A água escura desce encostada no talude, a menos de um metro por segundo, num plano inclinado que se estende por centenas de quilômetros. Um mergulhador largado no meio da queda não sentiria queda nenhuma, só um frio parado e uma corrente lenta puxando para o norte da Islândia.

Para dar escala: o Salto Ángel, na Venezuela, tem 979 metros de queda livre, e as cataratas do Niágara despejam por volta de 2.400 metros cúbicos por segundo. O degrau submerso do estreito supera os dois em altura e em volume sem levantar um respingo.

Antes da água, vale olhar a pedra. O desenho do fundo é quem decide por onde ela pode passar.

Continue lendo ↓

 
 

I  O mapa do dia

I, Um degrau de pedra entre duas ilhas geladas

A queda tem endereço fixo: uma soleira de 620 metros.

O Atlântico Norte e os mares nórdicos não se tocam livremente. Entre eles existe uma muralha submersa contínua que sai da Groenlândia, passa pela Islândia, encosta nas ilhas Faroe e termina na Escócia: a dorsal Groenlândia-Escócia, uma crista vulcânica erguida pelo ponto quente que também fabricou a Islândia. Ela funciona como o paredão de uma represa de 2 mil quilômetros de comprimento.

Toda represa tem vertedouro. Nessa muralha existem dois principais, e o do Estreito da Dinamarca é o mais raso: a soleira, o ponto mais alto do fundo no caminho da água, fica a cerca de 620 metros. O outro vertedouro grande é o canal do Banco de Faroe, a leste, com soleira por volta de 840 metros. A água dos mares nórdicos só sai para o Atlântico profundo por essas passagens.

O estreito tem nome de império. Danmarksstrædet, ou estreito da Dinamarca, foi batizado quando Islândia e Groenlândia respondiam à coroa dinamarquesa. Em islandês ele se chama Grænlandssund, o som da Groenlândia, sendo sund a palavra nórdica para braço de mar estreito. A margem oeste é a costa de Blosseville, um paredão groenlandês de basalto preto com geleiras despejando direto no mar, e a margem leste é Straumnes, a ponta dos fiordes do oeste islandês.

A SOLEIRA E O TALUDE

O leito do estreito não é uma calha limpa. Da soleira para o sul, o fundo cai em degraus e vales encaixados, e a água densa se espalha por um canal principal encostado na borda groenlandesa, mais duas vias secundárias descobertas por mapeamento de sonar multifeixe. A queda inteira acontece em espaços fechados de rocha, com paredes que empurram a corrente sempre para a direita por efeito da rotação da Terra.

A superfície mente sobre o que corre embaixo. Na camada de cima, a Corrente da Groenlândia Oriental leva gelo à deriva para o sul, o storís dos islandeses, o gelo grande que vem do Ártico e às vezes encosta na costa norte da ilha. Logo ao lado, a Corrente de Irminger sobe com água morna e salgada vinda do sul. As duas viajam em sentidos opostos, na mesma faixa de mar, por cima de uma terceira corrente que desce no escuro.

O gargalo também tem serventia militar. O corredor entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, chamado de GIUK pelas iniciais dos três, é a única saída larga do Ártico para o Atlântico aberto, e foi vigiado com sensores acústicos de fundo durante a Guerra Fria. A mesma estreiteza que obriga a água a passar por ali obriga qualquer submarino a passar também.

Passada a pedra, sobra entender a água que escorre por ela.

 
 

II  O que tem ali

II, Água a menos de zero grau correndo no escuro

O líquido que transborda a soleira tem ficha própria. A temperatura fica abaixo de zero, perto de meio grau negativo, e a salinidade beira 34,9 partes por mil. A combinação de frio com sal deixa essa água mais pesada que qualquer outra ao redor, e um corpo mais pesado dentro de um fluido só tem um caminho: o de baixo.

A descida não é constante. Os fundeios registram pulsos, blocos de água densa que os oceanógrafos chamam de bolus, do latim para bolo ou bocado, passando pela soleira a cada dois a cinco dias, com velocidades de pico acima de um metro por segundo. Entre um pulso e outro o transbordo continua, mais fraco, como torneira que nunca fecha.

O volume cresce durante a queda. Ao descer o talude, a corrente fria arrasta consigo a água morna vizinha, processo chamado de entranhamento, a mistura forçada pelo atrito nas bordas do jato. Perto de 3,4 milhões de metros cúbicos por segundo entram pelo estreito, e a corrente chega ao fundo do mar de Irminger com cerca de três vezes o volume inicial.

"The great ocean conveyor"

a grande esteira do oceano. Wallace Broecker, revista Oceanography, 1991. O geoquímico americano usou a imagem para descrever o circuito que leva água de superfície ao fundo no Atlântico Norte, empurra o fundo até o Índico e o Pacífico e devolve tudo à superfície séculos depois.

O produto dessa queda tem nome de rótulo de garrafa: Água Profunda do Atlântico Norte, a massa de água que preenche o Atlântico dos 2 mil metros para baixo e viaja até o oceano Antártico. Um volume de água que passa pelo Estreito da Dinamarca hoje só volta a ver o sol em algo entre 500 e mil anos, já perto da Antártida.

O estreito também guarda uma data de guerra. Em 24 de maio de 1941, a Marinha alemã forçou a passagem com o encouraçado Bismarck e o cruzador Prinz Eugen, e a Marinha britânica saiu ao encontro com o Hood e o Prince of Wales. O combate durou menos de 20 minutos, o Hood afundou com quase toda a tripulação, o Bismarck seguiu para o Atlântico com um tanque de combustível furado e foi encurralado três dias depois a oeste da França.

Medir o lugar continua caro e difícil. A linha de fundeios do estreito, chamada de seção Kögur, precisa ser visitada por navio de pesquisa a cada ano ou dois, para trocar bateria e baixar dados, numa janela de bom tempo que dura poucas semanas no verão boreal. Placa de gelo à deriva já arrancou equipamento ancorado ali.

Falta a pergunta que o degrau não responde sozinho: de onde vem toda essa água pesada.

 

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III  Por que a linha passa ali

III, O frio do inverno nórdico é quem empurra

A fábrica fica ao norte. A Corrente Norte-Atlântica entra nos mares nórdicos carregada de água morna e salgada vinda dos trópicos, passa o inverno exposta ao ar polar sobre os mares da Groenlândia e da Islândia e perde calor para a atmosfera. Ela esfria, encolhe de volume, fica densa e afunda, guardando o sal que trouxe do sul.

A conta que move tudo é pequena. A água de transbordo pesa cerca de meio quilo a mais por metro cúbico do que a água atlântica vizinha, uma diferença de menos de 0,05 por cento. Basta ela para escolher o lado de baixo do degrau e sustentar a maior queda de água do planeta durante o ano inteiro.

O degrau impõe a regra do fluxo. Quando um líquido denso transborda uma soleira estreita, a vazão passa a depender só da altura da camada densa acima da pedra e do contraste de densidade, num regime que os físicos chamam de controle hidráulico, o mesmo princípio do vertedouro de uma barragem. Por causa dele, a vazão do estreito varia pouco de ano para ano, mesmo com o clima mudando em volta.

1. Abra o mapa do Atlântico Norte e ache a Islândia. Suba o dedo pela costa oeste dela até Straumnes, a ponta mais a noroeste, nos fiordes.

2. Atravesse para oeste cerca de 300 quilômetros, até a costa leste da Groenlândia, na altura da costa de Blosseville. A faixa de mar entre os dois pontos é o Estreito da Dinamarca.

3. Marque o meio dessa linha. Ali, 620 metros abaixo da superfície, começa a queda que desce até 3.500 metros no lado sul.

A origem da água pesada mudou de endereço faz pouco tempo. Kjetil Våge e colegas publicaram em 2011, na Nature Geoscience, a descrição da Corrente de Jato Norte-Islandesa, um fluxo profundo que corre encostado no talude norte da Islândia e entrega cerca de um terço do transbordo do estreito. Até então a suspeita era de que quase tudo vinha da Corrente da Groenlândia Oriental, mais a oeste.

O motivo de acompanhar o degrau é planetário. Essa queda alimenta o ramo profundo da circulação de revolvimento do Atlântico, a esteira que transporta calor do equador para a Europa. O programa OSNAP, rede internacional de fundeios instalada no Atlântico subpolar desde 2014, mostrou em trabalho liderado por Susan Lozier, publicado na revista Science em 2019, que o revolvimento é bem mais variável de mês a mês do que os modelos supunham, e que o lado leste do Atlântico subpolar pesa mais na conta do que o lado oeste.

"Quantos degraus invisíveis seguram a temperatura do lugar onde você mora?"

A série de fundeios do estreito continua sendo atualizada, e o programa OSNAP publica os dados abertos em o-snap.org, com a leva seguinte prevista para a virada de 2026 para 2027. Reconfira ali no começo de 2027, e no site do Instituto de Pesquisa Marinha e de Água Doce da Islândia, o Hafrannsóknastofnun, que divulga os cruzeiros anuais na seção Kögur.

 
 

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DCerca de 3.500 metros

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