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A areia queima a sola das dez da manhã em diante no alto das dunas de Santo Amaro do Maranhão, e quinze passos abaixo a água da lagoa bate na canela morna, na temperatura de banho já pronto. O vento de nordeste empurra grãos rasteiros contra a pele e mantém um chiado seco de areia raspando areia, sem pausa, das primeiras horas de sol às cinco da tarde.
Esse campo de dunas cobre cerca de 1.550 quilômetros quadrados no litoral leste do Maranhão, protegido como Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses por decreto federal de junho de 1981. A areia é branca, de quartzo quase puro, quase sem mineral escuro misturado, e avança terra adentro por cima de restinga, capim rasteiro e pé de buriti.
A chuva é o que separa o lugar de um deserto. O plano de manejo do parque, publicado pelo Ibama em 2003, registra precipitação anual acima de 1.200 milímetros, concentrada entre janeiro e junho. Deserto de verdade recebe menos de 250 milímetros por ano, e nenhum deles enche lagoa de água doce todo mês de abril.
A água que cai não desce até sumir. Abaixo da areia existe uma camada impermeável de sedimento compactado, e ela trava a infiltração. O lençol freático, a água subterrânea logo abaixo da superfície, sobe acima do piso das depressões cavadas entre as dunas e enche milhares de lagoas, algumas com centenas de metros de comprimento e profundidade de nadador adulto.
De julho em diante o sol e o vento devolvem essa água ao ar. As lagoas encolhem semana a semana, o fundo racha em placas duras, e o campo de dunas retoma a marcha para sudoeste enquanto a estação de chuva seguinte não chega. Quem visita em março e volta em outubro vê duas paisagens diferentes no mesmo endereço.
Vale fixar primeiro a posição exata: os limites do campo de areia, os rios que o cercam e as cidades que abrem a porta dele.
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I O mapa do dia
I, Dunas entre dois rios, no litoral leste
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Um campo de areia de 1.550 km² no litoral leste do Maranhão.
O campo de dunas ocupa a faixa costeira dos municípios de Humberto de Campos, Primeira Cruz, Santo Amaro do Maranhão e Barreirinhas, no nordeste do estado, perto do paralelo 2° sul. De São Luís, capital maranhense, são pouco mais de 250 quilômetros de estrada até Barreirinhas, pela rodovia MA-402, asfaltada nos anos 2000.
O rio Preto corre pela borda leste, junto a Barreirinhas, e o rio Novo desce pelo lado oeste, em Santo Amaro. A areia cobre tudo o que fica no vão dos dois. Os rios funcionam como estrada de água: lancha sobe do porto de Barreirinhas até os povoados de Vassouras, Atins e Caburé, e o visitante entra no campo de areia pela margem.
O decreto de criação do parque saiu em 2 de junho de 1981 e hoje a unidade é administrada pelo ICMBio, o instituto federal responsável pelas áreas protegidas do país. Em 2024, o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, reunido em Nova Délhi, inscreveu os Lençóis Maranhenses na lista de patrimônio natural do planeta.
AREIA QUE AINDA ANDA
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Os cordões mais altos do campo passam de 40 metros e avançam para sudoeste empurrados pelo vento de nordeste, que sopra forte na segunda metade do ano; o dossiê aprovado pela Unesco em 2024 trata o lugar como sistema de dunas ativo, em movimento medido, e não como paisagem já parada e endurecida.
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O terreno tem três faixas paralelas ao mar. Na frente, a praia aberta e os bancos de areia que a maré descobre. Atrás dela, o campo de dunas propriamente dito, branco e sem vegetação no miolo. Na retaguarda, uma zona de transição com restinga, brejo e buritizal, onde a areia em marcha soterra a vegetação viva.
Dentro do campo existem manchas de terra firme que a areia contornou, com palmeira, água de poço e chão duro. São os oásis, ilhas de vegetação cercadas de duna por todos os lados, e é nelas que moram as famílias que vivem dentro do parque.
As portas de entrada são três. Barreirinhas concentra pousada, aeroporto regional e a saída de veículo 4x4 para a Lagoa Bonita e a Lagoa Azul. Santo Amaro do Maranhão abre o lado oeste, menos movimentado. Atins, na foz do rio Preto, serve quem faz a travessia a pé pelo interior do campo.
Fixado o terreno, cabe olhar o que a areia e a água guardam dentro dele.
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II O que tem ali
II, Lagoas cheias, peixes que esperam na areia
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As lagoas nascem nas depressões entre os cordões de duna e recebem nome de quem mora perto. Lagoa Bonita e Lagoa Azul ficam no setor de Barreirinhas; Lagoa da Preguiça, Lagoa Esperança e Lagoa Tropical, no setor de Santo Amaro. O volume sobe de janeiro a junho, chega ao máximo por volta de maio e cai até quase nada em novembro.
Peixe aparece em lagoa que não existia três meses antes, e há duas explicações para o fenômeno. Parte chega por conexão temporária com rio ou brejo em ano de cheia grande. Parte vem dos rivulídeos, peixes de ciclo anual que põem ovos resistentes à seca na lama do fundo; o ovo passa meses enterrado na areia úmida e eclode quando a água volta.
A vida animal não para nos peixes. O ICMBio registra na área do parque a passagem de aves migratórias que descem do hemisfério norte, como maçaricos e batuíras, além de jacaré-tinga nos brejos da retaguarda e tartaruga marinha desovando na faixa de praia.
QUEM MORA DENTRO DO CAMPO DE AREIA
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Os povoados de Queimada dos Britos e Baixa Grande ficam no miolo do campo de dunas, a horas de caminhada de qualquer estrada, e abrigam dezenas de moradores descendentes de famílias que chegaram ali antes da criação do parque, vivendo de criação solta, roça pequena e hospedagem de quem faz a travessia a pé.
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A economia desses oásis sai do buriti. A palmeira dá fruto para polpa e doce, palha para cobertura e talo para cerca, e cresce justamente onde o lençol freático encosta na superfície. Junto dela vêm a juçara e pequenas roças de mandioca, protegidas do vento por cerca de vara.
A travessia a pé entre Atins e Santo Amaro leva em média três dias, com pernoite em Queimada dos Britos e em Baixa Grande, e depende de guia local: não existe trilha marcada, porque a duna que serviu de referência no ano passado mudou de lugar. A orientação é feita por sol, por copa de buriti avistada de longe e por memória de terreno.
O turismo de um dia funciona por outro caminho. Caminhonetes 4x4 saem de Barreirinhas no fim da manhã, sobem a duna de acesso à Lagoa Bonita e devolvem o grupo no início da noite. A visitação se concentra de junho a setembro, quando a chuva já parou e as lagoas ainda têm água, e é essa janela que sustenta a renda de guias, pilotos de lancha e pousadas da região.
A areia branca impõe o limite dessa ocupação. Ela não guarda nutriente, esquenta demais ao meio-dia e se move, o que impede plantação e construção no miolo do campo. Toda a vida humana do parque se organiza nas bordas e nos oásis, e sempre à distância curta de água doce.
Catalogado o que vive ali, falta a razão de tanta água parada em cima de tanta areia.
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