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970 km² de mar viraram terra firme
Flevoland foi bombeada para fora do fundo do Zuiderzee e virou a maior ilha artificial do planeta, com cidades fundadas no leito.
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Flevopolder, terra bombeada do Zuiderzee
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As bombas da estação De Blocq van Kuffeler não pararam nem de madrugada, e o vento que descia do dique trazia cheiro de lodo salgado secando ao sol. Quando o último trecho apareceu, em 1968, o fundo do antigo mar interior holandês estava ali inteiro, coberto de conchas, de sola de sapato e de casco de barco parado no ponto exato onde afundou.
A operação não tinha nada de improviso. O anel de diques já estava fechado havia dois anos, e o bombeamento retirou a água de um retângulo de 430 quilômetros quadrados, o Flevoland do sul. O trecho do norte, com 540, tinha secado em 1957 pelo mesmo método: cerca o pedaço de mar com um dique, instale bombas nas pontas, tire a água, e o que sobra é chão.
Os dois retângulos juntos formam o Flevopolder, 970 quilômetros quadrados de terra que nenhuma força natural criou. É a maior ilha artificial do planeta, e ela tem endereço, CEP e trânsito na hora do rush. Lelystad foi erguida sobre o leito e recebeu os primeiros moradores em 1967. Almere começou em 1976 num pedaço de fundo de mar que ainda cheirava a maré, e hoje passa dos 220 mil habitantes no registro do CBS, o instituto de estatística holandês.
O chão dessas cidades está entre três e cinco metros abaixo do nível da água que corre do lado de fora do dique. A superfície inteira depende de bomba ligada, todo dia, para sempre. Não existe versão dessa paisagem que funcione desligada.
A escala fica visível quando se soma o que a Holanda drenou nesse projeto: um território maior que muitas províncias europeias inteiras, criado por decisão de engenharia dentro de um único século. Cada estrada, cada plantação de batata e cada escola de bairro ali está apoiada em sedimento que era leito marinho na memória de gente ainda viva.
Antes das casas, houve uma decisão hidráulica de escala continental: fechar a boca de um golfe que entrava pelo país adentro e transformar água salgada em lago doce. Ali começa a linha que desenha tudo o que veio depois.
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I O mapa do dia
Um golfe fechado por 32 quilômetros de dique
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Um golfe de mar salgado virou lago doce em 1932.
O Zuiderzee era uma entrada de mar no norte da Holanda, aberta para o Mar do Norte por uma passagem larga entre a costa e as ilhas Frísias Ocidentais. Rasa, salgada e generosa com o arenque, servia de estrada de água para as cidades portuárias do interior. Também servia de porta para a tempestade.
Em 1891, o engenheiro Cornelis Lely apresentou o plano de fechar essa entrada e drenar boa parte do que ficasse dentro. O projeto ficou parado por décadas. A enchente de janeiro de 1916, que rompeu diques ao redor do golfe e alagou vilas inteiras, mudou a conversa: em 1918 o parlamento holandês aprovou a Zuiderzeewet e autorizou a obra.
O fecho principal foi o Afsluitdijk, construído entre 1927 e 1932, com 32 quilômetros de dique entre a Holanda do Norte e a Frísia, segundo o cadastro do Rijkswaterstaat, a autoridade de águas do país. No dia em que a última brecha foi tapada, a maré parou de entrar. O corpo de água atrás do dique virou o IJsselmeer e foi ficando doce, porque o rio IJssel continuou despejando água de chuva ali dentro e o excedente passou a sair por comportas.
O CALENDÁRIO DA TERRA NOVA
A drenagem veio por partes, cada uma cercada antes de ser esvaziada. Wieringermeer secou em 1930, ainda antes do dique principal ficar pronto. O Noordoostpolder apareceu em 1942, colado na terra velha. O Flevoland Leste emergiu em 1957 e o Flevoland Sul em 1968.
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Cada pôlder é um retângulo cercado por dique próprio, com estações de bombeamento nas quinas e uma malha de valas que joga a água de chuva para dentro dos canais principais, de onde as bombas a devolvem ao lago do lado de fora.
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O trabalho de fechar cada anel era lento e feito com material barato. Barcaças despejavam argila e areia sobre uma base de esteira de vime afundada no leito, camada sobre camada, até a linha do dique aparecer acima da água. Só então as bombas entravam em serviço, primeiro a vapor, depois a diesel e a eletricidade, tirando volume de água durante meses seguidos até o topo da lama secar ao vento.
O ganho total de superfície foi da ordem de 1.650 quilômetros quadrados, um acréscimo territorial que poucos países conseguiram por meios pacíficos no século 20. A Holanda ganhou um pedaço novo de si mesma sem tirar de vizinho nenhum.
O que apareceu embaixo da água drenada, porém, não era um terreno pronto para receber trator e casa. Era lama marinha com séculos de sedimento e naufrágio dentro.
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II O que tem ali
O leito do mar entregue com o que havia nele
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O primeiro problema do fundo drenado é que ele continua encharcado. A solução holandesa foi biológica e virou rotina: aviões sobrevoaram os pôlderes recém-secos jogando semente de junco. A planta cresce rápido, puxa umidade pelas raízes e racha a lama compactada, deixando o solo arejado para o arado entrar dois ou três anos depois.
Com o junco cortado e queimado, vieram a colza e o cereal. O solo de fundo de mar tem argila fina, matéria orgânica e sal que a chuva lava com o tempo, e virou uma das terras agrícolas mais produtivas da Europa, dividida em lotes retangulares distribuídos pelo Estado a agricultores selecionados um por um.
Debaixo desse solo apareceu um museu inesperado. O fundo do Zuiderzee guardava centenas de embarcações afundadas ao longo de séculos, preservadas pela lama sem oxigênio. As escavações nos pôlderes descobriram cascos com carga, louça e ferramenta ainda no lugar, hoje estudados e expostos pelo Batavialand, o museu de Lelystad dedicado à história dessa água.
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"Holanda, que mal merece o nome de terra, sendo apenas a raspa da areia britânica."
Andrew Marvell, The Character of Holland, 1653.
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As cidades chegaram por decreto de planejamento, não por acaso geográfico: Dronten em 1962, Lelystad como capital provincial batizada em homenagem ao engenheiro do plano, Almere em 1976 e Zeewolde em 1984, o último município fundado do zero no país.
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Nem tudo virou lavoura ou rua. No canto noroeste do Flevoland Sul, uma área destinada à indústria ficou parada por falta de demanda e alagou sozinha. O brejo que se formou atraiu ganso, garça e águia-rabalva, e acabou virando reserva natural, a Oostvaardersplassen, um dos casos mais discutidos de natureza que apareceu num terreno projetado para fábrica.
Almere cresceu mais rápido do que qualquer previsão do plano original, puxada pela proximidade com Amsterdã e por casa maior a preço menor. Em poucas décadas passou de canteiro de obras a um dos maiores municípios do país, com linha de trem, universidade de ciências aplicadas e bairros inteiros de arquitetura experimental erguidos sobre estacas fincadas na argila marinha.
A província de Flevoland foi criada em 1986, a mais nova das doze holandesas, feita de chão que quinze anos antes ainda tinha peixe nadando por cima.
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