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ED 004

6.384 km do centro da Terra, e não é o Everest

O cume do Chimborazo, no Equador, está 2 quilômetros mais longe do centro do planeta que o Everest, e nenhum dos dois números está errado.

Vista do vulcão Chimborazo, no Equador, com a calota de gelo do cume acima do páramo andino.

O cume gelado do Chimborazo sobre o páramo

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O Mauna Kea, no Havaí, tem 4.207 metros de altitude. Medido do pé, do ponto em que a montanha encosta no fundo do Pacífico e começa a subir, ele tem 10.210 metros, mais de mil metros a mais que o Everest. Os dois números descrevem a mesma montanha e nenhum dos dois está errado.

Altura de montanha não é uma propriedade da montanha. É uma subtração, e quem escolhe o número de baixo decide o resultado antes de qualquer alpinista sair do acampamento.

O monte Lamlam, na ilha de Guam, tem 406 metros. É um morro. A fossa das Marianas passa perto dali e, se a conta começar no fundo dela, o Lamlam vira um desnível vertical de mais de 11 mil metros.

O zero mais usado é o nível do mar, que parece a coisa mais estável do mundo e não é. O oceano acompanha a gravidade: empoça onde a rocha embaixo é mais densa e afunda onde ela é mais leve. Terra adentro, o zero vira uma superfície calculada, o mar que existiria ali se o continente abrisse espaço.

Entre o ponto mais baixo dessa superfície, no Índico ao sul da Índia, e o mais alto, perto da Islândia, há quase 200 metros de diferença. O zero de um lugar não é o zero do outro.

Cada régua tem o seu campeão. Do nível do mar para cima, o Everest. Do pé ao cume, o Mauna Kea. Do desnível sobre o terreno em volta, o Denali, que sobe 5.500 metros da planície do Alasca.

Nenhuma dessas disputas usa o zero mais óbvio de todos, o único que não depende de maré, de geleira nem de convenção assinada: o centro do planeta.

O mapa de hoje é um vulcão apagado no Equador, a menos de dois graus da linha. Ele perde do Everest em altitude por mais de dois mil e quinhentos metros e mesmo assim termina mais longe do centro da Terra. Onde ele fica, o que existe no cume e por que a régua troca o campeão.

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I  O mapa do dia

Onde o planeta engorda 21 quilômetros

Um vulcão apagado a 160 quilômetros da linha do equador, e o pedaço de crosta mais afastado do centro do planeta. Veja onde ele fica.

A Terra tem 12.756 quilômetros de diâmetro na linha do equador e 12.713 quilômetros de polo a polo. São 43 quilômetros de diferença entre a medida deitada e a medida em pé, e cada raio equatorial leva 21 quilômetros de vantagem sobre o raio polar.

A culpa é da rotação. Um ponto no equador viaja a 1.674 quilômetros por hora, e a velocidade empurra matéria para fora com força suficiente para deformar uma bola de rocha de seis mil quilômetros de raio.

O achatamento é de 1 para 298. Em proporção, o planeta é mais liso que uma bola de bilhar, e ainda assim os 21 quilômetros de sobra passam de longe qualquer montanha já medida. Todo ponto perto da linha começa a corrida lá em cima, de graça.

O Chimborazo fica a 1 grau e 28 minutos ao sul do equador, cerca de 160 quilômetros abaixo da linha, na cordilheira ocidental dos Andes equatorianos. Riobamba está a uns 30 quilômetros a sudeste, e Quito, a capital, a 150 ao norte.

Ele tem 6.263 metros de altitude, número refeito em 2016 pelo Instituto Geográfico Militar do Equador junto com o instituto francês de pesquisa para o desenvolvimento. É o ponto mais alto do país.

Em altitude, o Everest ganha com folga: 8.848,86 metros contra 6.263. São 2.586 metros de diferença, quase a altura inteira do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil.

A conta vira quando o zero desce para o centro do planeta. O Everest está a quase 28 graus de latitude norte, e o paralelo que ele ocupa já nasce 4,7 quilômetros mais perto do centro que o paralelo do Chimborazo.

O cume do Chimborazo está a 6.384,4 quilômetros do centro da Terra. O do Everest, a 6.382,3. A montanha 2.586 metros mais baixa termina 2,1 quilômetros mais longe.

A linha do equador cruza outro vulcão do mesmo país, o Cayambe, de 5.790 metros, o ponto mais alto que a linha toca no planeta inteiro. Sentado na crista da barriga, ele ainda perde: é 473 metros mais baixo e fica meio quilômetro atrás.

O Huascarán, no Peru, a 9 graus ao sul, chega tão perto do mesmo número que a diferença entre os dois cumes cabe dentro da margem do modelo de geoide usado na conta.

Na outra ponta da tabela está o fundo do oceano Ártico, perto do polo, a cerca de 6.353 quilômetros do centro. São 31 quilômetros de raio até o cume do Chimborazo.

O efeito aparece longe de qualquer cume. Uma praia no litoral do Equador está cerca de seis quilômetros mais longe do centro do planeta que o topo do Mont Blanc.

 
 

II  O que tem ali

Meio quilo a menos no cume

O Chimborazo não entra em erupção desde cerca do ano 550, e o cume que ele apresenta hoje é uma calota de gelo apoiada em rocha vulcânica.

Desde então a montanha só perde matéria: erosão, degelo, avalanche e o vento constante do corredor andino.

O topo tem dois picos. O Veintimilla, de 6.230 metros, é onde boa parte das expedições para. O Whymper, 33 metros acima, é o ponto que entra na conta dos 6.384 quilômetros.

A calota de gelo cobria perto de 28 quilômetros quadrados nos anos 1960. Hoje é menos da metade, e o recuo continua.

Enquanto sobrou gelo, ele virou mercadoria. Por séculos, homens da região subiram até perto de 4.800 metros, cortaram blocos de geleira com picareta, embrulharam em palha de páramo e desceram no lombo de burro para vender no mercado de Riobamba.

O último deles, Baltazar Ushca, continuou subindo depois que todos os companheiros trocaram a picareta por outro trabalho, e virou tema de documentário em 2012.

Em volta da montanha, a Reserva de Produção de Fauna Chimborazo protege 58 mil hectares de páramo desde 1987. As vicunhas voltaram em 1988, trazidas do Chile e do Peru em lotes de poucas centenas, e as contagens mais recentes passam de sete mil animais.

A altura também mexe na balança. A gravidade no alto dos Andes equatoriais é a mais fraca que um ser humano encontra em terra firme, porque o ponto está longe do centro e a rotação ajuda a empurrar para fora.

O mínimo medido no planeta fica no cume do Huascarán, 9,7639 metros por segundo ao quadrado, com o Chimborazo logo atrás. O máximo é sobre o oceano Ártico, 9,8337. Entre os dois extremos há 0,7 por cento.

Subir o Chimborazo é a forma mais limpa de perder peso sem perder massa: quem tem setenta quilos ao nível do mar marca cerca de meio quilo a menos no cume.

A montanha entrou na história científica antes de entrar na esportiva. Em 23 de junho de 1802, Alexander von Humboldt subiu o flanco sul com Aimé Bonpland e Carlos Montúfar e parou perto dos 5.875 metros, barrado por uma fenda no gelo.

Foi a maior altitude documentada para um ser humano até então, e o registro durou décadas. Da viagem saiu o desenho do perfil da montanha com as faixas de vegetação empilhadas por altitude, uma das imagens fundadoras da ecologia.

O cume só foi pisado em 4 de janeiro de 1880, por Edward Whymper com Jean-Antoine e Louis Carrel. O primeiro dos Carrel tinha sido rival de Whymper na corrida pelo Matterhorn, em 1865, e quinze anos depois subiu ao lado dele.

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III  Por que a linha passa ali

A régua que Newton escolheu

Em 1687, Isaac Newton publicou que a Terra não podia ser uma esfera. Se a gravidade puxa tudo para o centro e a rotação empurra tudo para fora, o resultado tem que ser uma bola achatada nos polos e inchada no meio.

"A Terra é mais alta sob o equador do que nos polos, com um excesso de cerca de dezessete milhas."

Isaac Newton, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, 1687.

Ele calculou a razão entre os dois diâmetros em 230 para 229. Exagerou, porque o valor real é 298 para 297. Acertou o sentido, que era a parte em disputa.

Em Paris, a família Cassini media arcos de meridiano e chegava ao contrário: planeta esticado nos polos, formato de limão. Duas escolas, duas geometrias incompatíveis.

Em 1735, a Academia de Ciências da França decidiu resolver a briga em campo. Mandou uma expedição para a Lapônia, perto do círculo polar, e outra para a Audiência de Quito, em cima da linha do equador. Se o grau de latitude saísse mais curto no equador, Newton estava certo.

A missão equatorial levou dez anos. Charles Marie de La Condamine, Pierre Bouguer e Louis Godin mediram uma base na planície de Yaruquí e triangularam três graus de meridiano pelo corredor de vulcões onde está o Chimborazo.

O grau equatorial saiu mais curto. O limão morreu, o achatamento virou fato medido e a expedição ficou como marco de nascimento da geodésia moderna.

Bouguer aproveitou a viagem para uma segunda medida. Em 1738 ele levou um fio de prumo ao flanco do Chimborazo para ver quanto a massa da montanha puxava o fio para o lado.

O desvio foi pequeno demais para concluir alguma coisa, e o método só deu certo em 1774, na colina escocesa de Schiehallion. O nome do francês ficou na correção de gravidade dos levantamentos até hoje.

Do outro lado do mundo, a régua do nível do mar demorou mais a apontar um vencedor. O Everest só foi identificado como o ponto mais alto acima do mar em 1852, no cálculo do Pico XV que o matemático indiano Radhanath Sikdar fechou para o levantamento britânico da Índia.

O número divulgado em 1856 foi 8.840 metros. A altura oficial de hoje, 8.848,86 metros, é de 2020, acordada entre China e Nepal depois de anos de divergência sobre incluir ou não a neve do topo na medida.

1. Abra um globo digital e gire até a linha do equador ficar de perfil. O Chimborazo aparece a menos de dois graus abaixo dela, no meio do território equatoriano.

2. Compare com a latitude do Everest, quase 28 graus ao norte. Aquele paralelo corre 4,7 quilômetros mais perto do centro do planeta.

3. Some a altitude de cada cume ao raio do próprio paralelo. O Everest chega a 6.382,3 quilômetros e o Chimborazo a 6.384,4.

Nenhuma das duas montanhas mudou de tamanho. Mudou o ponto onde a fita métrica começa, e o campeão trocou de continente.

"Quantos recordes do mundo são disputas sobre o formato da régua, e não sobre quem chegou mais longe?"

 
 
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A que distância do centro da Terra fica o cume do Chimborazo?

A6.353 quilômetros
B6.378,1 quilômetros
C6.382,3 quilômetros
D6.384,4 quilômetros

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