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6.384 km do centro da Terra, e não é o Everest
O cume do Chimborazo, no Equador, está 2 quilômetros mais longe do centro do planeta que o Everest, e nenhum dos dois números está errado.
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O cume gelado do Chimborazo sobre o páramo
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O Mauna Kea, no Havaí, tem 4.207 metros de altitude. Medido do pé, do ponto em que a montanha encosta no fundo do Pacífico e começa a subir, ele tem 10.210 metros, mais de mil metros a mais que o Everest. Os dois números descrevem a mesma montanha e nenhum dos dois está errado.
Altura de montanha não é uma propriedade da montanha. É uma subtração, e quem escolhe o número de baixo decide o resultado antes de qualquer alpinista sair do acampamento.
O monte Lamlam, na ilha de Guam, tem 406 metros. É um morro. A fossa das Marianas passa perto dali e, se a conta começar no fundo dela, o Lamlam vira um desnível vertical de mais de 11 mil metros.
O zero mais usado é o nível do mar, que parece a coisa mais estável do mundo e não é. O oceano acompanha a gravidade: empoça onde a rocha embaixo é mais densa e afunda onde ela é mais leve. Terra adentro, o zero vira uma superfície calculada, o mar que existiria ali se o continente abrisse espaço.
Entre o ponto mais baixo dessa superfície, no Índico ao sul da Índia, e o mais alto, perto da Islândia, há quase 200 metros de diferença. O zero de um lugar não é o zero do outro.
Cada régua tem o seu campeão. Do nível do mar para cima, o Everest. Do pé ao cume, o Mauna Kea. Do desnível sobre o terreno em volta, o Denali, que sobe 5.500 metros da planície do Alasca.
Nenhuma dessas disputas usa o zero mais óbvio de todos, o único que não depende de maré, de geleira nem de convenção assinada: o centro do planeta.
O mapa de hoje é um vulcão apagado no Equador, a menos de dois graus da linha. Ele perde do Everest em altitude por mais de dois mil e quinhentos metros e mesmo assim termina mais longe do centro da Terra. Onde ele fica, o que existe no cume e por que a régua troca o campeão.
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I O mapa do dia
Onde o planeta engorda 21 quilômetros
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Um vulcão apagado a 160 quilômetros da linha do equador, e o pedaço de crosta mais afastado do centro do planeta. Veja onde ele fica.
A Terra tem 12.756 quilômetros de diâmetro na linha do equador e 12.713 quilômetros de polo a polo. São 43 quilômetros de diferença entre a medida deitada e a medida em pé, e cada raio equatorial leva 21 quilômetros de vantagem sobre o raio polar.
A culpa é da rotação. Um ponto no equador viaja a 1.674 quilômetros por hora, e a velocidade empurra matéria para fora com força suficiente para deformar uma bola de rocha de seis mil quilômetros de raio.
O achatamento é de 1 para 298. Em proporção, o planeta é mais liso que uma bola de bilhar, e ainda assim os 21 quilômetros de sobra passam de longe qualquer montanha já medida. Todo ponto perto da linha começa a corrida lá em cima, de graça.
O Chimborazo fica a 1 grau e 28 minutos ao sul do equador, cerca de 160 quilômetros abaixo da linha, na cordilheira ocidental dos Andes equatorianos. Riobamba está a uns 30 quilômetros a sudeste, e Quito, a capital, a 150 ao norte.
Ele tem 6.263 metros de altitude, número refeito em 2016 pelo Instituto Geográfico Militar do Equador junto com o instituto francês de pesquisa para o desenvolvimento. É o ponto mais alto do país.
Em altitude, o Everest ganha com folga: 8.848,86 metros contra 6.263. São 2.586 metros de diferença, quase a altura inteira do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil.
A conta vira quando o zero desce para o centro do planeta. O Everest está a quase 28 graus de latitude norte, e o paralelo que ele ocupa já nasce 4,7 quilômetros mais perto do centro que o paralelo do Chimborazo.
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O cume do Chimborazo está a 6.384,4 quilômetros do centro da Terra. O do Everest, a 6.382,3. A montanha 2.586 metros mais baixa termina 2,1 quilômetros mais longe.
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A linha do equador cruza outro vulcão do mesmo país, o Cayambe, de 5.790 metros, o ponto mais alto que a linha toca no planeta inteiro. Sentado na crista da barriga, ele ainda perde: é 473 metros mais baixo e fica meio quilômetro atrás.
O Huascarán, no Peru, a 9 graus ao sul, chega tão perto do mesmo número que a diferença entre os dois cumes cabe dentro da margem do modelo de geoide usado na conta.
Na outra ponta da tabela está o fundo do oceano Ártico, perto do polo, a cerca de 6.353 quilômetros do centro. São 31 quilômetros de raio até o cume do Chimborazo.
O efeito aparece longe de qualquer cume. Uma praia no litoral do Equador está cerca de seis quilômetros mais longe do centro do planeta que o topo do Mont Blanc.
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II O que tem ali
Meio quilo a menos no cume
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O Chimborazo não entra em erupção desde cerca do ano 550, e o cume que ele apresenta hoje é uma calota de gelo apoiada em rocha vulcânica.
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Desde então a montanha só perde matéria: erosão, degelo, avalanche e o vento constante do corredor andino.
O topo tem dois picos. O Veintimilla, de 6.230 metros, é onde boa parte das expedições para. O Whymper, 33 metros acima, é o ponto que entra na conta dos 6.384 quilômetros.
A calota de gelo cobria perto de 28 quilômetros quadrados nos anos 1960. Hoje é menos da metade, e o recuo continua.
Enquanto sobrou gelo, ele virou mercadoria. Por séculos, homens da região subiram até perto de 4.800 metros, cortaram blocos de geleira com picareta, embrulharam em palha de páramo e desceram no lombo de burro para vender no mercado de Riobamba.
O último deles, Baltazar Ushca, continuou subindo depois que todos os companheiros trocaram a picareta por outro trabalho, e virou tema de documentário em 2012.
Em volta da montanha, a Reserva de Produção de Fauna Chimborazo protege 58 mil hectares de páramo desde 1987. As vicunhas voltaram em 1988, trazidas do Chile e do Peru em lotes de poucas centenas, e as contagens mais recentes passam de sete mil animais.
A altura também mexe na balança. A gravidade no alto dos Andes equatoriais é a mais fraca que um ser humano encontra em terra firme, porque o ponto está longe do centro e a rotação ajuda a empurrar para fora.
O mínimo medido no planeta fica no cume do Huascarán, 9,7639 metros por segundo ao quadrado, com o Chimborazo logo atrás. O máximo é sobre o oceano Ártico, 9,8337. Entre os dois extremos há 0,7 por cento.
Subir o Chimborazo é a forma mais limpa de perder peso sem perder massa: quem tem setenta quilos ao nível do mar marca cerca de meio quilo a menos no cume.
A montanha entrou na história científica antes de entrar na esportiva. Em 23 de junho de 1802, Alexander von Humboldt subiu o flanco sul com Aimé Bonpland e Carlos Montúfar e parou perto dos 5.875 metros, barrado por uma fenda no gelo.
Foi a maior altitude documentada para um ser humano até então, e o registro durou décadas. Da viagem saiu o desenho do perfil da montanha com as faixas de vegetação empilhadas por altitude, uma das imagens fundadoras da ecologia.
O cume só foi pisado em 4 de janeiro de 1880, por Edward Whymper com Jean-Antoine e Louis Carrel. O primeiro dos Carrel tinha sido rival de Whymper na corrida pelo Matterhorn, em 1865, e quinze anos depois subiu ao lado dele.
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