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Em 1º de julho de 1890, Alemanha e Grã-Bretanha assinaram em Berlim um acordo que trocou pedaços de mundo entre as duas potências.
A Grã-Bretanha recebeu mão livre em Zanzibar e em Witu, na costa do atual Quênia, e o caminho aberto para Uganda. Zanzibar era um sultanato rico, dono do comércio da costa oriental e maior produtor de cravo do mundo.
A Alemanha recebeu Heligolândia, uma ilha de menos de dois quilômetros quadrados no Mar do Norte, sem valor agrícola, plantada na frente da foz do Elba e do canal que o país abria para a esquadra.
Recebeu também a faixa de terra no sul da África, para ligar sua colônia do Sudoeste Africano ao Zambeze. Nacionalistas em Berlim resumiram o negócio como a troca de reinos africanos por uma banheira no Mar do Norte.
Quem assinou pela Alemanha foi o chanceler Leo von Caprivi, no cargo havia poucos meses, sucessor direto de Bismarck. A faixa levou o nome dele, e ele nunca pôs os pés lá.
A colônia alemã tinha mais de 1.500 quilômetros de costa atlântica e nenhum porto de água profunda utilizável, porque Walvis Bay, o único abrigo bom do litoral, era enclave britânico.
O plano era chegar ao Zambeze, descer o rio até Moçambique e emendar com a África Oriental Alemã.
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O tratado garantiu que a faixa em nenhum ponto teria menos de vinte milhas inglesas de largura. Garantiu a largura do corredor, não garantiu que o rio no fim dele fosse navegável.
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A conta que faltou é de geografia elementar. Menos de setenta quilômetros rio abaixo da ponta da faixa, o Zambeze despenca 108 metros. Rio acima, dentro da própria faixa, as corredeiras de Katima Mulilo fecham a outra direção.
O limite sul da faixa é o paralelo 18 sul, reta pura, até encontrar o Chobe. O do norte veio de um acordo com Portugal, em 1886: outra reta, de Andara até as corredeiras.
A Alemanha levou dezenove anos para ocupar o que comprou. Só em 1909 um residente imperial chegou e fundou Schuckmannsburg, sede administrativa de poucas casas na margem do rio.
Em setembro de 1914, o magistrado britânico da margem oposta atravessou o rio, informou ao residente alemão que havia guerra na Europa e recebeu a rendição da faixa inteira sem um disparo.
Hoje o corredor funciona, e funciona ao contrário. A estrada asfaltada nos anos 1990 liga Katima Mulilo ao resto da Namíbia e desce até Walvis Bay, no Atlântico, cerca de 1.600 quilômetros a oeste.
O cobre da Zâmbia e do Congo desce por ali para sair pelo oceano errado. A faixa comprada para alcançar o Índico virou atalho para o Atlântico, na direção oposta à do tratado.
1. Abra um mapa de satélite na Namíbia e procure o traço fino no canto nordeste. Ele começa perto de Divundu e vai para leste até o Zambeze. |
2. Use a régua do aplicativo de norte a sul no trecho mais apertado. O número fica perto de 32 quilômetros, a largura mínima que o tratado exigiu. |
3. Siga o rio para leste a partir da ponta da faixa. Em menos de setenta quilômetros aparece a linha branca das Cataratas Vitória. |
A Alemanha comprou 450 quilômetros de corredor para chegar ao mar e parou a setenta quilômetros de uma parede de água de 108 metros.
"Quantas fronteiras do mundo continuam de pé por causa de uma conta que ninguém foi conferir?"
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