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ED 003

450 km de corredor até uma queda de 108 metros

Em 1890 a Alemanha abriu mão de Zanzibar para ganhar um corredor de 450 quilômetros até o rio Zambeze e navegar ao Índico.

Vista de satélite do corredor estreito da Faixa de Caprivi, no nordeste da Namíbia, apontado para o rio Zambeze.

A Faixa de Caprivi a caminho do rio Zambeze

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O Corredor de Wakhan, no Afeganistão, tem cerca de 350 quilômetros de comprimento e, em alguns trechos, quinze de largura. Ele não foi desenhado para servir a ninguém que mora ali. Foi desenhado em 1893 para que os impérios russo e britânico nunca encostassem um no outro.

Corredor é a forma mais estranha que um país pode ter. Um Estado inteiro estica um braço fino de terra, às vezes com poucas dezenas de quilômetros de largura, para alcançar alguma coisa que não tem em casa: um porto, um rio, um vizinho conveniente.

A República Democrática do Congo tem 37 quilômetros de litoral. Um país de 2,3 milhões de quilômetros quadrados escoa por um funil apertado entre duas metades de Angola, e a largura daquele trecho de costa decide o custo de tudo que entra e sai.

A Bolívia perdeu o dela em 1884 e passou o século seguinte tentando recomprar um pedaço de costa que já não estava à venda.

O corredor também é a forma mais frágil. Ele depende de uma promessa: a de que, no fim da faixa, existe de fato a coisa que justificou a faixa. Quando a promessa não se confirma, o traço não é apagado. Ele fica.

Fronteira é o produto mais durável que a diplomacia fabrica. O tratado envelhece, o império acaba, o funcionário que assinou vira nome de rua, e a linha continua no mapa cem anos depois, decidindo em que país a criança estuda e para que lado o caminhão vira.

O mapa de hoje é o corredor mais improvável do continente africano. Uma faixa comprida e magra que sai do canto de um país seco, atravessa o topo dele até encostar em quatro vizinhos e termina exatamente na margem de um rio enorme. Quanto ela mede, o que existe dentro dela, e por que aquele rio nunca serviu para o que prometia.

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I  O mapa do dia

O braço que a Namíbia estica

Um traço fino de 450 quilômetros que sai do canto de um país seco e para na margem do Zambeze. Veja onde ele passa.

A Faixa de Caprivi mede cerca de 450 quilômetros de comprimento e, no ponto mais estreito, 32 quilômetros de largura. Em qualquer mapa-múndi ela aparece como um traço fino saindo do canto nordeste da Namíbia, apontado para o leste como um dedo.

O bloco principal do país é compacto e colado no Atlântico. A faixa sai dele na altura do rio Okavango e segue para dentro do continente até tocar a margem do Zambeze.

Quem atravessa a faixa de norte a sul de carro, no trecho mais apertado, faz o percurso em menos de meia hora. Quem a percorre no sentido do comprimento passa o dia inteiro na estrada.

São quatro vizinhos em volta de uma faixa dessa espessura. Ao norte, Angola e depois a Zâmbia. Ao sul, Botsuana do começo ao fim. Na ponta leste, do outro lado da água, o Zimbábue.

A ponta é uma ilha chamada Impalila, no encontro do Chobe com o Zambeze. Num raio de poucos quilômetros ali se juntam quatro países, e a fronteira entre Botsuana e Zâmbia tem cerca de 150 metros de comprimento, a menor do mundo entre dois Estados.

Do fim da faixa até as Cataratas Vitória são menos de setenta quilômetros de rio. É a distância entre a promessa que justificou o corredor e a parede de 108 metros que a cancela.

A região inteira tem cerca de 14,8 mil quilômetros quadrados, menos que Sergipe, e pouco mais de 90 mil habitantes no censo de 2011.

A capital regional é Katima Mulilo, na margem do Zambeze, com perto de 28 mil moradores. De lá até Windhoek, a capital do país, são aproximadamente 1.200 quilômetros de estrada.

A conta das distâncias explica a vida ali. De Katima Mulilo, as capitais da Zâmbia, do Zimbábue e de Botsuana ficam todas mais perto do que a capital nacional, e o comércio da cidade responde a essa geometria.

Quase tudo dentro da faixa está a poucos quilômetros de uma fronteira internacional. Escola, posto de saúde e pasto ficam encostados em outro país.

O nome oficial da região mudou em 2013. Caprivi virou Zambeze, num desmonte de toponímia colonial, e o chanceler alemão saiu do mapa administrativo da Namíbia.

A faixa, no entanto, continua sendo Faixa de Caprivi em atlas, manual de geografia e mapa de aeroporto do mundo inteiro. O apelido antigo, dedo de Caprivi, também não saiu de circulação.

 
 

II  O que tem ali

Água demais no país mais seco

A Namíbia é o país mais seco da África subsaariana, e a Faixa de Caprivi é o único pedaço dele em que a água aparece como problema de excesso.

A média nacional de chuva fica perto de 285 milímetros por ano. No deserto do Namibe, na costa, há trechos que não chegam a 20. Na faixa o índice passa de 600, e a estação chuvosa alaga planície inteira.

Nenhum rio perene nasce dentro da Namíbia. Todos correm nas bordas do país, e quatro deles cruzam ou tocam a faixa: o Okavango na entrada, o Cuando no meio, o Linyanti e o Chobe no trecho final, o Zambeze na ponta.

Dois desses nomes são o mesmo rio. O Cuando desce de Angola, vira Linyanti quando encosta no pântano, muda para Chobe depois da curva e entrega a água no Zambeze. Um curso só, três nomes, três trechos de fronteira.

Entre março e maio a cheia inverte a geografia local. O Zambeze transborda sobre as planícies, estradas de terra somem debaixo da lâmina de água e o transporte volta a ser canoa por semanas.

O bicho grande usa a faixa como corredor. A Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambeze, montada por cinco países em 2011, cobre cerca de 520 mil quilômetros quadrados e é a maior do planeta em terra firme.

O levantamento aéreo mais recente da área contou perto de 220 mil elefantes, mais da metade dos elefantes de savana que restam na África. A faixa é o gargalo do sistema: por ali as manadas de Botsuana passam para Angola e Zâmbia.

A mesma estreiteza que fez do corredor um fracasso diplomático faz dele o pescoço por onde circula a maior população de elefantes do mundo.

No fim da faixa está o motivo de tudo. O Zambeze corre 2.574 quilômetros do planalto da Zâmbia até o oceano Índico, é o quarto maior rio da África e drena um território de mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados.

Setenta quilômetros depois da ponta da faixa, o rio inteiro cai de uma vez. As Cataratas Vitória têm 1.708 metros de largura e 108 metros de altura no ponto mais fundo, e a coluna de vapor que elas levantam se enxerga de dezenas de quilômetros.

O nome local descreve melhor: Mosi oa Tunya, a fumaça que troveja. O missionário escocês que chegou à borda em 16 de novembro de 1855 preferiu batizar a queda com o nome da rainha da Inglaterra.

"Cenas tão belas devem ter sido contempladas por anjos em pleno voo."

David Livingstone, Viagens e Pesquisas Missionárias na África do Sul, 1857.

A frase virou cartão-postal. A consequência prática da queda demorou mais a aparecer nos gabinetes europeus, e saiu caro para quem tinha acabado de comprar um corredor até aquele rio.

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III  Por que a linha passa ali

A troca que ninguém foi conferir

Em 1º de julho de 1890, Alemanha e Grã-Bretanha assinaram em Berlim um acordo que trocou pedaços de mundo entre as duas potências.

A Grã-Bretanha recebeu mão livre em Zanzibar e em Witu, na costa do atual Quênia, e o caminho aberto para Uganda. Zanzibar era um sultanato rico, dono do comércio da costa oriental e maior produtor de cravo do mundo.

A Alemanha recebeu Heligolândia, uma ilha de menos de dois quilômetros quadrados no Mar do Norte, sem valor agrícola, plantada na frente da foz do Elba e do canal que o país abria para a esquadra.

Recebeu também a faixa de terra no sul da África, para ligar sua colônia do Sudoeste Africano ao Zambeze. Nacionalistas em Berlim resumiram o negócio como a troca de reinos africanos por uma banheira no Mar do Norte.

Quem assinou pela Alemanha foi o chanceler Leo von Caprivi, no cargo havia poucos meses, sucessor direto de Bismarck. A faixa levou o nome dele, e ele nunca pôs os pés lá.

A colônia alemã tinha mais de 1.500 quilômetros de costa atlântica e nenhum porto de água profunda utilizável, porque Walvis Bay, o único abrigo bom do litoral, era enclave britânico.

O plano era chegar ao Zambeze, descer o rio até Moçambique e emendar com a África Oriental Alemã.

O tratado garantiu que a faixa em nenhum ponto teria menos de vinte milhas inglesas de largura. Garantiu a largura do corredor, não garantiu que o rio no fim dele fosse navegável.

A conta que faltou é de geografia elementar. Menos de setenta quilômetros rio abaixo da ponta da faixa, o Zambeze despenca 108 metros. Rio acima, dentro da própria faixa, as corredeiras de Katima Mulilo fecham a outra direção.

O limite sul da faixa é o paralelo 18 sul, reta pura, até encontrar o Chobe. O do norte veio de um acordo com Portugal, em 1886: outra reta, de Andara até as corredeiras.

A Alemanha levou dezenove anos para ocupar o que comprou. Só em 1909 um residente imperial chegou e fundou Schuckmannsburg, sede administrativa de poucas casas na margem do rio.

Em setembro de 1914, o magistrado britânico da margem oposta atravessou o rio, informou ao residente alemão que havia guerra na Europa e recebeu a rendição da faixa inteira sem um disparo.

Hoje o corredor funciona, e funciona ao contrário. A estrada asfaltada nos anos 1990 liga Katima Mulilo ao resto da Namíbia e desce até Walvis Bay, no Atlântico, cerca de 1.600 quilômetros a oeste.

O cobre da Zâmbia e do Congo desce por ali para sair pelo oceano errado. A faixa comprada para alcançar o Índico virou atalho para o Atlântico, na direção oposta à do tratado.

1. Abra um mapa de satélite na Namíbia e procure o traço fino no canto nordeste. Ele começa perto de Divundu e vai para leste até o Zambeze.

2. Use a régua do aplicativo de norte a sul no trecho mais apertado. O número fica perto de 32 quilômetros, a largura mínima que o tratado exigiu.

3. Siga o rio para leste a partir da ponta da faixa. Em menos de setenta quilômetros aparece a linha branca das Cataratas Vitória.

A Alemanha comprou 450 quilômetros de corredor para chegar ao mar e parou a setenta quilômetros de uma parede de água de 108 metros.

"Quantas fronteiras do mundo continuam de pé por causa de uma conta que ninguém foi conferir?"

 
 
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Quiz da edição

Depois do fim da Faixa de Caprivi, quantos quilômetros de rio faltam até as Cataratas Vitória?

A108 metros
B70 quilômetros
C450 quilômetros
D32 quilômetros

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