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Geografia do Dia  Geografia do Dia ED 001

3,8 km de água e 21 horas de diferença

No estreito de Bering, duas ilhas se enxergam a 3,8 quilômetros de distância e acordam em dias diferentes do calendário.

Vista aérea das duas ilhas Diomedes no estreito de Bering, separadas por um canal estreito de mar gelado.

O canal entre a Diomedes Maior e a Menor

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Num planisfério, quase toda fronteira do calendário é invisível. A Linha Internacional de Data é a exceção. Ela aparece desenhada, vertical, cortando o Pacífico de cima a baixo, e é o único traço do mapa que separa dois dias em vez de dois países.

Pela lógica ela deveria seguir o meridiano de 180 graus, o antípoda de Greenwich, reta de polo a polo. O traçado real dá voltas. Desce em degraus para manter Kiribati inteira na mesma data, contorna as Fiji e, no norte do Pacífico, faz uma curva de mais de mil quilômetros para o leste.

Cada curva tem a mesma causa. A linha não sai de tratado nenhum: cada país escolhe o próprio fuso horário e o cartógrafo apenas costura o resultado no papel.

A linha, portanto, é uma emenda: o ponto em que a última hora adotada de um lado encosta na primeira hora adotada do outro. Emenda de mapa vai onde incomoda menos. Ela foge de terra firme, porque um país partido em duas datas viraria um pesadelo de banco, de escola e de agenda.

Ela procura água aberta, procura vazio, procura o trecho de planeta onde o menor número de pessoas acorda em desacordo com o relógio do vizinho. No Pacífico central sobra oceano de sobra para escolher.

Sobra um problema no extremo norte. Ali dois continentes chegam perto o bastante para se enxergar de uma ponta à outra, e a passagem entre eles é apertada demais para a linha escolher o caminho com folga. Pior: no meio da passagem existem duas ilhas, e uma delas é habitada.

O mapa de hoje é o mapa desse vão. Onde ele fica, quem mora nele, o que acontece com o relógio de quem atravessa, e por que a costura entre o hoje e o amanhã do planeta foi parar exatamente naquele ponto, e não vinte quilômetros mais a leste.

Continue lendo!

 
 

I  O mapa do dia

Duas pedras no meio do estreito

Duas mesas de rocha no meio da passagem entre a Ásia e a América. Uma é russa e vazia, a outra é americana e tem 82 moradores. Veja o que separa as duas além da água.

O estreito de Bering tem 82 quilômetros no ponto mais apertado. Ele separa o cabo Dejnev, a ponta oriental da Ásia, do cabo Príncipe de Gales, a ponta ocidental da América, e é a menor distância entre os dois continentes em qualquer lugar do planeta.

Bem no meio dessa passagem, quase à mesma distância das duas costas, o mar joga para cima duas mesas de rocha. A maior tem cerca de 29 quilômetros quadrados, um platô plano no alto e falésias que caem direto na água. A menor tem cerca de 7 quilômetros quadrados e a mesma forma bruta.

A maior é russa e aparece nos mapas de Moscou como Ostrov Ratmanova. A menor é americana e aparece nos mapas de Washington como Little Diomede. Na língua inupiaque de quem sempre morou nas duas, elas são Imaqliq e Inalik.

Entre uma e outra correm 3,8 quilômetros de água salgada. Um barco a motor cobre a distância em vinte minutos. Em invernos rigorosos o canal congela inteiro e forma uma ponte de gelo que dá para atravessar a pé.

As duas ficam em torno de 65 graus e 47 minutos de latitude norte, pouco abaixo do Círculo Polar Ártico. Do alto do platô da ilha maior, em dia limpo, aparecem as duas margens do estreito ao mesmo tempo: a Ásia a oeste e a América a leste.

O nome de batismo veio de uma data. Em 16 de agosto de 1728, a expedição de Vitus Bering avistou as duas ilhas e registrou o achado com o nome do santo daquele dia no calendário ortodoxo, Diomedes. Ficaram Diomedes Maior e Diomedes Menor.

Três quilômetros e oitocentos metros de água separam a última terra da Ásia da primeira terra da América.

Na encosta oeste da Diomedes Menor existe uma aldeia com o nome da ilha. As casas ficam empilhadas na rocha, presas ao paredão, todas viradas para o canal. O censo americano de 2020 contou 82 moradores.

A aldeia não tem pista de pouso. Correio, passageiros e carga chegam de helicóptero, quando o tempo permite, e em alguns invernos a comunidade limpa uma pista sobre o gelo marinho para receber avião pequeno.

Da janela de qualquer casa, a ilha inteira do outro lado ocupa o horizonte. As falésias da Diomedes Maior sobem a quase 500 metros e tapam a vista do resto do estreito.

Na Diomedes Maior não mora ninguém. Desde 1948, a única presença permanente é um posto da guarda de fronteira russa, com militares em rodízio e nenhuma família.

 
 

II  O que tem ali

Quando é domingo de um lado só

A diferença entre as duas ilhas não é de um dia inteiro. São 21 horas de relógio e uma virada de calendário: a Diomedes Maior já amanheceu no dia seguinte enquanto a Diomedes Menor ainda cumpre a tarde do dia anterior.

O relógio da ilha americana segue o horário do Alasca, nove horas atrás de Greenwich. O relógio da ilha russa segue o horário de Kamtchatka, doze horas à frente. Somadas as duas pontas, dá 21 horas de distância entre dois pontos que se enxergam.

Coloque um número na conta. Quando são nove da manhã de sábado na aldeia americana, na ilha em frente são seis da manhã de domingo. Mesmo instante, mesmo sol no céu, duas datas e três horas de relógio de diferença.

As três horas que faltam para fechar as 24 confundem quase todo mundo. A troca de data acontece de uma vez, mas o vão de relógio depende do fuso que cada país escolheu, e o horário de verão do Alasca ainda encurta a conta: entre março e novembro a diferença cai para 20 horas.

Os apelidos em inglês nasceram desse arranjo. A ilha russa virou Tomorrow Island, a ilha do amanhã. A americana virou Yesterday Isle, a ilha do ontem. Quem mora na aldeia passa o dia inteiro olhando para a data seguinte, a vinte minutos de barco.

O canal já foi rua de família, e não fronteira de superpotência.

As mesmas famílias inupiat caçavam morsa, casavam e visitavam parentes nas duas ilhas. No inverno o gelo virava estrada, e o trajeto entre as aldeias era rotina de quem morava ali.

Em 1948 a passagem fechou. O governo soviético retirou os moradores da Diomedes Maior e os levou para o continente da Chukotka, e o vão de 3,8 quilômetros virou o trecho mais vigiado do que ficou conhecido como Cortina de Gelo.

Parentes ficaram quarenta anos sem se ver, separados por uma distância que dá para cobrir a pé sobre o gelo. A reabertura veio em 13 de junho de 1988, quando um voo fretado saiu de Nome, no Alasca, e pousou em Provideniya, na Chukotka.

No ano anterior o canal tinha sido atravessado a nado. Em 7 de agosto de 1987, a americana Lynne Cox entrou na água pela Diomedes Menor e alcançou a Diomedes Maior em pouco mais de duas horas, com a água perto de 4 graus e autorização dos dois governos.

A travessia virou assunto de Estado. Em dezembro daquele ano, Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov brindaram ao feito durante a assinatura do tratado de mísseis em Washington, e citaram os 3,8 quilômetros como prova de que a distância entre os dois países era pequena.

O gelo continua se formando em alguns invernos e a ponte natural continua ali. Atravessar segue proibido: quem pisa na outra margem entra em outro país sem posto de imigração, sem carimbo e sem estrada de volta.

 
 

III  Por que a linha passa ali

Um meridiano comprado em 1867

A costura do calendário não tem dono, e uma emenda sem dono precisa de uma fresta pronta para atravessar. No estreito de Bering a fresta já estava marcada quase um século antes de o mundo padronizar os fusos.

Em 30 de março de 1867, o secretário de Estado americano William Seward e o ministro russo Eduard de Stoeckl assinaram em Washington a venda do Alasca por 7,2 milhões de dólares. O artigo I do tratado precisava dizer onde a Rússia terminava e os Estados Unidos começavam.

"A linha passa por um ponto no estreito de Bering, no paralelo de sessenta e cinco graus e trinta minutos de latitude norte, na sua interseção com o meridiano que passa a meio caminho entre as ilhas de Krusenstern, ou Ignalook, e a ilha de Ratmanoff, ou Noonarbook, e segue rumo norte, sem limitação, até o Oceano Glacial."

Tratado de Cessão do Alasca, artigo I, assinado por William Seward e Eduard de Stoeckl, 1867.

Krusenstern era o nome russo da ilha menor e Ratmanoff o da maior. O meio-caminho descrito no texto cai no meridiano 168 graus, 58 minutos e 37 segundos oeste, e a fronteira dos dois países virou uma reta subindo pelo canal até o Ártico.

A padronização mundial dos fusos veio depois, a partir da conferência do meridiano realizada em Washington em 1884. Cada país escolheu seu horário: a Rússia levou a Chukotka para o lado asiático da data, os Estados Unidos levaram o Alasca para o lado americano.

A costura entre as duas datas tinha um único lugar possível no estreito. Passar por terra dividiria uma aldeia ao meio; passar mais a leste ou mais a oeste jogaria território de um país no calendário do outro. Sobrou a fenda de água que a escritura de 1867 já tinha aberto.

O primeiro efeito apareceu na hora da entrega. Na cerimônia de Sitka, o Alasca trocou o calendário juliano russo pelo gregoriano americano e mudou de lado da data no mesmo ato. Sexta-feira, 6 de outubro de 1867, foi seguida por outra sexta-feira, 18 de outubro.

O território pulou onze números do calendário e viveu duas sextas seguidas. A mudança de fronteira tinha levado junto a mudança de dia.

1. Abra um mapa de satélite e busque a coordenada 65,78 norte e 168,95 oeste. As duas ilhas aparecem juntas na mesma tela.

2. Use a régua do aplicativo entre as duas costas voltadas uma para a outra. O número fica perto de 3,8 quilômetros.

3. Compare o fuso de cada uma. O marcador salta de nove horas atrás de Greenwich para doze horas à frente no meio do canal.

A costura entre o hoje e o amanhã do planeta segue o traçado de uma escritura de compra e venda assinada em 1867.

"Quantas linhas do mapa você atravessa sem saber quem as desenhou?"

 
 

Quiz da edição

Quantas horas de diferença de relógio separam a Diomedes Maior (Rússia) da Diomedes Menor (EUA), mesmo as duas ilhas se enxergando?

A24 horas
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C21 horas
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