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ED 002

2.688 km de água em qualquer direção

No Pacífico Sul existe um ponto em que a terra firme mais próxima fica a 2.688 quilômetros, e o vizinho mais perto costuma passar em órbita.

Vista de satélite do Pacífico Sul aberto na região do Ponto Nemo, sem nenhuma terra firme à vista.

O vazio do Pacífico Sul em volta do Ponto Nemo

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Todo mapa-múndi tem um lugar que ninguém desenhou de propósito. Não é capital, não é montanha, não é fronteira. É o resultado de uma conta: o ponto de uma superfície que consegue ficar o mais longe possível de qualquer borda.

Geógrafos chamam a família inteira de polos de inacessibilidade. Existe o polo continental da Eurásia, no norte da China, a mais de 2.500 quilômetros do mar mais próximo. Existe o polo sul de inacessibilidade, o trecho da Antártida mais distante de qualquer costa.

Cada um responde à mesma pergunta com o sinal trocado. Onde a terra fica mais longe da água? Onde a água fica mais longe da terra? A segunda pergunta é bem mais difícil do que parece.

Não basta olhar o Pacífico e apontar o meio. O planeta é curvo, o papel é plano, e a projeção estica a distância de um jeito que o olho não corrige. A conta exige medir, ilha por ilha, quanto de mar cabe entre um ponto imaginário e cada pedaço de terra do mundo.

Existe um agravante. A terra mais próxima não precisa ser continente nem país habitado. Uma rocha de duzentos metros no meio do nada entra na conta com o mesmo peso do Brasil, e costuma ser justamente uma dessas pedras que decide o resultado.

No oceano a resposta é única e fica no Pacífico Sul, num quadrado de água que nenhuma rota comercial atravessa e nenhum país reivindica. O nome dela saiu de um romance do século 19. As coordenadas exatas são bem mais recentes do que a maioria das pessoas imagina.

O mapa de hoje é o mapa desse vazio. Quais são os três pedaços de terra que ficam mais perto do ponto, quem costuma passar por cima dele, o que vive no fundo depois de 4 mil metros de água, e por que as agências espaciais do mundo inteiro combinaram de afundar ali as naves que já cumpriram o serviço.

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I  O mapa do dia

Um ponto que só existe em cálculo

Um marcador em água aberta do Pacífico Sul, a 2.688 quilômetros da terra mais próxima. Veja quem fez a conta.

O Ponto Nemo fica a 48 graus, 52 minutos e 36 segundos de latitude sul, e a 123 graus, 23 minutos e 36 segundos de longitude oeste. Em qualquer aplicativo de mapa o marcador cai em água aberta do Pacífico Sul, sem nada em volta em nenhuma direção.

Três pedaços de terra dividem o posto de vizinho mais próximo, e os três estão praticamente à mesma distância: 2.688 quilômetros.

Ao norte fica Ducie, um atol desabitado do arquipélago de Pitcairn. A nordeste fica Motu Nui, a ilhota de rocha diante da Ilha de Páscoa. Ao sul fica Maher, uma ilha vulcânica encostada na Terra de Marie Byrd, na Antártida.

O empate não é coincidência. O ponto é, por definição, o centro do maior círculo de mar que cabe no planeta sem tocar terra firme, e as três ilhas estão todas na borda desse círculo.

O círculo tem 2.688 quilômetros de raio e cobre perto de 22 milhões de quilômetros quadrados de oceano. É mais superfície do que a Rússia inteira, o maior país do mundo, e dentro dele não existe uma única praia.

Quando a Estação Espacial passa por cima, os seres humanos mais próximos do Ponto Nemo estão a 400 quilômetros de altitude, e não na superfície do mar.

A órbita da estação cruza a latitude do ponto com frequência, e a tripulação leva pouco mais de dez minutos para atravessar o círculo inteiro de ponta a ponta. Um veleiro na mesma travessia gasta semanas.

O cálculo tem autor e data. Em 1992, o engenheiro de agrimensura Hrvoje Lukatela rodou o problema num programa de geometria geodésica e fixou o par de coordenadas com precisão de poucos metros.

O trabalho pesado não é achar o meio do oceano. É provar que nenhum outro ponto do planeta consegue ficar mais longe de terra firme, testando cada candidato contra a lista completa de ilhas do mundo.

O nome veio de um capitão de ficção, o comandante do submarino Náutilus que decidiu viver longe de qualquer país. Em latim, nemo significa ninguém.

O ponto também não pertence a ninguém no sentido jurídico. Fica em águas internacionais, fora de qualquer zona econômica exclusiva, a milhares de quilômetros da bandeira mais próxima.

Nenhuma rota comercial passa por perto, porque não existe porto de origem nem porto de destino que justifique o desvio. Quem chega mais perto são veleiros de regata de volta ao mundo, e mesmo eles cruzam a região a centenas de quilômetros do ponto exato.

 
 

II  O que tem ali

O deserto mais transparente do mar

O Ponto Nemo fica no meio do giro do Pacífico Sul, a maior região de água pobre do planeta: quase nenhum nutriente chega à superfície, e onde não há nutriente também não há vida em quantidade.

Um giro oceânico é um redemoinho lento do tamanho de um continente. As correntes fecham um anel, a água roda no mesmo circuito por décadas e o centro do anel fica isolado do resto do mar.

No meio do giro a camada de superfície não se mistura com a água funda. Sem mistura, os nutrientes que alimentam o plâncton ficam presos lá embaixo, e a faixa iluminada trabalha com quase nada.

O resultado é a água mais transparente já medida em mar aberto. Em 1997, uma expedição científica afundou um disco branco de medição no giro do Pacífico Sul e ainda enxergava o disco a 79 metros de profundidade.

Transparência, no mar, é sinônimo de fome. O que turva a água de uma costa produtiva é vida: plâncton, sedimento, matéria orgânica em suspensão. Onde o azul fica limpo como vidro, quase nada cresce.

Abaixo da superfície o vazio continua. O fundo na região do ponto fica perto de 4 mil metros, numa planície de argila avermelhada sem cadeia de montanhas submarinas por perto.

O sedimento cai tão devagar que o relógio geológico quase para. A camada cresce menos de um milímetro a cada mil anos, e boa parte do material é poeira soprada de continentes distantes ou partícula que veio do espaço.

A vida ali não desapareceu, ela ficou rara a ponto de mudar a química do fundo.

Em 2010, um navio de perfuração científica cruzou o giro e retirou testemunhos do sedimento em vários pontos da travessia. A contagem de células por centímetro cúbico apareceu de mil a dez mil vezes menor do que em fundos oceânicos comuns.

O oxigênio apareceu onde ninguém esperava. Em fundo normal os micróbios consomem o oxigênio nos primeiros centímetros de lama; ali ele atravessava a camada inteira de sedimento e alcançava a rocha vulcânica embaixo.

O silêncio da região já foi quebrado uma vez. Em 1997, hidrofones da agência oceânica americana registraram um som gravíssimo e potente vindo do Pacífico Sul, captado por sensores a milhares de quilômetros de distância.

O som ganhou o apelido de Bloop e alimentou anos de especulação sobre um animal gigante desconhecido. A explicação chegou depois: era gelo se partindo na Antártida, e o eco atravessou o oceano inteiro.

A ficção chegou ao lugar antes da geodésia. O conto O Chamado de Cthulhu, publicado em 1928, coloca uma cidade submersa em coordenadas do Pacífico Sul que caem a pouco mais de 300 quilômetros do Ponto Nemo, 64 anos antes de alguém calcular onde o ponto ficava.

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III  Por que a linha passa ali

O cemitério que a física escolheu

Toda máquina que sobe precisa de um plano para descer. Satélite pequeno em órbita baixa queima inteiro na reentrada e vira risco de ninguém. Estrutura grande é outro problema.

Peças densas atravessam a atmosfera e chegam ao chão. Tanques de titânio, esferas de pressão, estruturas de aço e vidros de janela resistem ao calor e caem com energia de sobra para furar o casco de um navio.

A área de queda nunca é um ponto. É uma elipse de centenas de quilômetros de comprimento, porque cada fragmento tem um formato e uma densidade, e cada um freia de um jeito diferente no ar.

A conta que interessa às agências, portanto, não é o alvo: é a margem de erro. A zona de descarte precisa ser maior do que qualquer elipse possível e precisa estar vazia de ponta a ponta.

As cartas náuticas registram a região com um nome burocrático, Área Desabitada do Oceano Pacífico Sul. Antes de cada reentrada, as autoridades emitem aviso aos navegantes e fecham o retângulo de mar e o espaço aéreo por algumas horas.

Entre 1971 e 2016, mais de 260 objetos espaciais foram derrubados ali de propósito. A lista tem cargueiros Progress às dezenas, estações Salyut, os cargueiros europeus ATV, os japoneses HTV e satélites no fim da vida útil.

A maior peça desceu em 23 de março de 2001. A estação Mir tinha cerca de 130 toneladas e 15 anos de órbita, e um cargueiro Progress acoplado serviu de freio: três acionamentos de motor rebaixaram a órbita e entregaram a estação à atmosfera no ângulo calculado.

A estrutura se partiu a caminho da água. Perto de mil e quinhentos fragmentos resistiram ao calor e caíram na faixa de Pacífico reservada para a operação, sem atingir embarcação nem terra firme.

O endereço tem uma ironia embutida. O ponto leva o nome de um capitão que rompeu com o mundo por vontade própria e escolheu o fundo do mar como país.

"Não sou o que os senhores chamam de um homem civilizado. Rompi com a sociedade inteira por razões que só eu tenho o direito de julgar."

Júlio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas, 1870.

A fila continua. O plano das agências prevê a saída de órbita da Estação Espacial Internacional por volta de 2030, com uma nave de desorbitação encomendada só para o serviço, empurrando mais de 400 toneladas para o mesmo trecho de oceano.

O apelido de cemitério de naves engana em um detalhe. Nada fica empilhado: os destroços estão espalhados por milhares de quilômetros quadrados de planície abissal, e ninguém nunca voltou lá para olhar.

1. Abra um mapa de satélite e busque a coordenada 48,876 sul e 123,393 oeste. A tela fica azul de canto a canto, sem uma única mancha de terra.

2. Afaste o zoom até aparecer o primeiro pedaço de chão. As manchas que surgem antes das outras são a Ilha de Páscoa a nordeste e Pitcairn ao norte.

3. Use a régua do aplicativo entre o marcador e cada uma delas. O número não desce de 2.688 quilômetros em direção nenhuma.

O lugar mais distante de qualquer costa virou o endereço postal das máquinas que o mundo já não usa.

"Quantos lugares do mapa existem só porque alguém precisou de um vazio?"

 
 
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Qual foi a explicação encontrada para o som gravíssimo apelidado de Bloop, captado por hidrofones em 1997 no Pacífico Sul?

AUm animal marinho gigante desconhecido
BGelo se partindo na Antártida
CUm submarino militar em testes
DUma erupção vulcânica submarina

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